​Assumir compromissos

Há muitos anos um designer dinamarquês comentava comigo que os portugueses são um povo fantástico, voluntarioso, empreendedor, mas nada consequente. As suas palavras sábias, de quem já tinha vivido muito, surgiram algures ao longo de conversas de partilha de sentimentos dolorosos, que comungávamos, acerca de perdas de pessoas que nos eram muito queridas. Por muitos motivos têm estado presentes nas últimas semanas. 

Estávamos em 2003.  Nesses nossos encontros, relacionados com a publicação de algumas obras, o tema central era quase sempre sobre as mulheres, sobre o seu papel fundamental na sociedade e nas múltiplas formas de discriminação de que eram alvo, da forma mecânica como viviam a cumprir, que não lhes deixava espaço para se insurgirem e do decorrente e incipiente ativismo feminino. 

 A discussão que estava em moda, na altura, era sobre os mecanismos de construção de uma democracia paritária. Ambos defendíamos que a crescente escolaridade das mulheres seria fundamental para alterar esse estado de coisas e que os mecanismos legais, de que tanto se falava, para a sua entrada nos lugares de decisão pública ou privada seriam sempre uma faca de dois gumes. Em termos de quantidade iriam funcionar, como de facto funcionaram, em termos de qualidade e de mérito seriam instrumentos perigosos. Por muito que se escreva e estude, a verdade é que a escolha das mulheres ainda está muito nos homens que detêm lugares de poder, como é quase invisível a influência que as mulheres têm na escolha de outras mulheres. Daí que os critérios sejam sempre duvidosos e pertençam a lógicas que não estão ligadas à importância que o feminino tem na construção de uma sociedade mais igualitária. 

Hoje uma percentagem significativa de mulheres detém níveis de habilitação escolar mais elevados. Embora uma boa parte das mulheres ainda sejam consideradas não qualificadas e, apesar da crise que lançou tantas mulheres e homens no desemprego, a sua presença no mercado de trabalho é muito forte. No entanto continuam a ganhar menos que os homens!!!

Passaram 14 anos sobre estas conversas, como passaram quase outros tantos sobre seis meses de reuniões e viagens à zona centro do país para discutirmos com os operacionais no terreno as necessidades logísticas de prevenção e combate a fogos florestais, ao mesmo tempo que reuníamos com investigadores, de várias áreas, sobre intervenção em situações de catástrofe. 

Este período da minha vida foi avivado com o ligeiro e rápido abalo sísmico que sentimos este mês, em Guimarães, e regressou nas últimas semanas de forma mais intensa com os trágicos fogos que nos ensombraram os dias.

Como eu compreendo alguns desabafos que ouvi na televisão sobre os livros brancos, verdes e amarelos, as teses de mestrado, os doutoramentos ou os projetos financiados por fundos comunitários, como aquele que coordenei… Todos se destinavam a mudar um percurso que se adivinhava trágico e que já tinha deixado tantas vítimas. 

Privei de perto com os companheiros dos 14 bombeiros que tombaram em Armamar, infelizmente também com os dos 4 bombeiros que, em Mortágua tiveram o mesmo destino em fevereiro de 2005. Em ambos os casos, os Presidentes da República da altura prestaram-lhes homenagem, as indemnizações… essas tardaram a chegar. Eu regressei a Guimarães, em finais de maio de 2005, desiludida pela inconsequência dos estudos, das promessas, dos abraços reconfortantes a que ainda hoje se fazem apelos. 

A questão em todas as situações que referi é muito mais profunda. Estranhamente não me parece que ela se venha alterar de forma significativa.  O civismo ensina-se da mesma forma e ao mesmo tempo que se ensina a falar e andar. A educação baseada em valores e no exemplo é uma tarefa de todos nós. As mentalidades e os comportamentos mudam se houver um compromisso durável individual e coletivo. 

Infelizmente os incêndios acontecem maioritariamente quando a praia e as férias acenam alegremente e deixam no esquecimento os que deles são vitimas, ano atrás de ano. As eleições, essas são logo a seguir às férias, pelo que as listas e a sua constituição já são coisa do passado. Antes estávamos ocupados com o sucesso na Eurovisão, a vinda do Papa, os títulos no futebol e outros episódios pontuais que nos aquecem a alma, mas não cuidam do nosso futuro. 

Luísa Oliveira, licenciada em Serviço Social , formadora e consultora. Presidente da Cooperativa Desincoop – Desenvolvimento Económico, Social e Cultural, CRL da qual é fundadora, iniciou  a sua intervenção politica como deputada municipal e anos mais tarde como vereadora da Câmara Municipal de Guimarães.