Hoje é feriado nacional, é dia da Imaculada Conceição, padroeira de Portugal por causa da restauração da Independência em relação a Espanha, e é dia de celebrar mais um aniversário do Banco da Partilha, uma loja social a funcionar em Guimarães há sete anos.
“Já posso levar o lanche?”, perguntou o Zé. “Já queres lanchar? Ainda é cedo, mas leva”, respondeu Sunamita Coutinho, a impulsionadora do Banco da Partilha, uma entidade que ajuda os mais carenciados a deixarem de o ser.

Pouco passava das três da tarde quando o Zé, chamemos-lhe assim porque não se quis identificar ao Duas Caras, passou pela loja do Banco da Partilha. Ele é um dos sem abrigo que encontra as portas abertas do número 13 da Rua Egas Moniz para um lanche diário oferecido pelos beneméritos desta “obra” dedicada à Nossa Senhora da Imaculada Conceição e que, por isso, completa sete anos hoje, dia 08 de dezembro. Há cerca de três anos que o Zé anda a tentar deixar o círculo vicioso que o fez morar na rua, e a este jornal diz que, com a ajuda do Banco da Partilha, passou a ter uma casa para morar e começou a tomar metadona. Já só lhe falta arranjar trabalho. “Isso está mais difícil”, responde.
São muito poucos aqueles que conseguem recuperar. Eles vão fazer tratamento, muitos não chegam a acabar o tempo que lhes é exigido, vêm-se embora porque não aguentam e voltam outra vez para a droga. Temos casos, um ou outro, que se estruturaram e agora estão a trabalhar. Lembro-me de um que tem uma filha de 13 anos, com o apoio da família conseguiu libertar-se da droga e agora está a trabalhar”
Sunamita Coutinho
É esta a esperança que move os voluntários e sócios do Banco da Partilha e é, por isso, que dos 21 sem abrigo que, atualmente, ajudam, pelas contas da mentora deste projeto solidário, “a maior parte já tem uma casinha ou um quarto” e só “cinco ou seis dormem na rua”. São casos difíceis de enquadrar em termos de apoios sociais formais muitas vezes porque têm antecedentes criminais e estão à espera de julgamento em Tribunal.

Nesta casa ninguém julga ninguém e, talvez por isso, os que aqui chegam a precisar de ajuda, regressam sempre. Das primeiras vezes dizem “ó dona” e não sabem o nome de quem se reveza para manter as portas abertas das 15h00 às 18h00, de segunda-feira a sábado. Mas à medida que os dias correm, ficam a conhecer a Conceição, a Soledade, a Lucília, a Rosa, a Adélia e a Rosarinho. Na hora da despedida dizem: “Até amanhã se Deus quiser”.
“Temos regras. Há um que não tem necessidade porque tem uma mãe muito querida mas está fixado pela roupa, além do lanche quer levar sempre uma peça de roupa, do tom verde. Está afetado pela droga, já esteve internado várias vezes no hospital. Uma vez trazia a mão toda inchada. ‘Fui eu que dei um murro’. Não é nada, a agulha é que foi para o sítio errado. E eu disse assim ‘Pois é, tens que ter cuidado com os murros que dás, porque daqui a pouco partes os ossos todos’”, comenta Sunamita Coutinho.
O Banco da Partilha “através do passa-palavra” tem recebido donativos provenientes também de outras cidades da região e aos poucos as “quatro ou cinco pessoas” que, inicialmente, colaboravam passaram a cerca de 70 no total.

Em jeito de prenda de aniversário, o Banco da Partilha mudou para uma loja maior, portas-meias do espaço anterior que, desde 2009, deu tanto amor e carinho também a famílias carenciadas. São oito as que neste momento recebem apoio mensal em forma de cabazes alimentares, roupa e outras necessidades que apresentem.
Temos 14 bebés que eram para ser abortados e nós impedimos que isso acontecesse. Dois foram para a Casa da Criança e foram adotados e os outros ficaram com os pais.”
Sunamita Coutinho
A responsável confessa que estas 14 crianças são agora como que filhos do Banco da Partilha. “A todos os bebés que nasceram aqui chegamos a dar uma caminha, carrinho de bebé, baby-coque”, enumera.
Às tantas pessoas que acompanham este projeto entraram para conhecer as novas instalações. “Isto já não é um corredor, agora é mesmo uma lojinha”, apreciam. “Já têm outro rosto”, responde Sunamita Coutinho. Retomada a entrevista, a responsável aponta para uma zona deste novo espaço preparada para os sem-abrigo se sentarem a comer o lanche no inverno. Embora exista a Casa dos Pobres para apoiar estas pessoas ao nível de refeições e banhos Sunamita Coutinho diz que falta em Guimarães um albergue para acolher os que dormem na rua, sujeitos ao frio e às intempéries.

O “trabalho em rede com a Segurança Social e com a Fraterna” inclui, além do apoio aos sem-abrigos e às famílias carenciadas, a integração e o acolhimento dos refugiados – o Banco da Partilha é uma das instituições vimaranenses que se associou ao plano de ação Guimarães Acolhe. “Tivemos que nos ajustar às necessidades e àquilo que nos pediam. Estamos ligados ao apoio linguístico e à atribuição de roupa. É um desafio diferente e também estamos abertos aos desafios”, refere Sunamita Coutinho.
A mentora do Banco da Partilha, embora admita que ajudar os mais necessitados dependa sobretudo de decisões políticas, como é o caso dos refugiados que atravessam o Mediterrâneo à procura da ajuda da Europa, confessa que todo o apoio do Banco da Partilha tem sido movido pela fé e pela providência divina. “Isto é tudo na gratuitidade. Nós vivemos na providência de Deus”, conclui.
Mas hoje o dia é de festa e vai-se juntar na lojinha do Banco da Partilha aqueles que ajudam e aqueles que precisam de ser ajudados para celebrarem juntos a solidariedade e o amor fraterno. As portas estão abertas para ambos, é só aparecer, hoje e todos os dias. Resta dizer: “Até amanhã se Deus quiser”.
