O Continente Europeu, e não apenas os países da União Europeia, constituem hoje um espaço regional politicamente à deriva. A União entregou-se a uma complexa teia burocrática que se vai enredando em si própria e começa a ver, cada vez mais longe, os objetivos estratégicos que estiveram na mente dos seus fundadores, na década de cinquenta do século passado.
Os países que não pertencem a este núcleo duro já minimizam as suas potencialidades e outros, no seu seio, dão sinais claros de o pretenderem abandonar, fustigados pela perigosa aragem de mudança que hoje agita o mundo. Esses ventos renegam os valores que estão na origem da sua constituição. Isto acontece porque a União, hoje, já não o é de todo. É, sim, um conjunto de países em que os princípios previamente estabelecidos em vários tratados, sendo aplicados de forma desigual, tornou-a frágil, às vezes até risível aos olhos dos seus adversários, e não só, tantas são as contradições em que se vai deixando mergulhar.
O conceito de bem-estar social de que foi modelo começa a esboroar-se face à voracidade de um capitalismo feroz e de teses nacionalistas que tendem a torná-la cada vez menos influente no areópago internacional onde se tomam as mais importantes decisões geoestratégicas. Sente-se impotente (sobretudo após o Brexit) à luz dos acontecimentos político-militares, que se desenvolvem nas suas periferias. Não tem respostas capazes para tais desmandos e, por isso, a tornam inofensiva na estratégia politico-global dos nossos dias. Dá sinais de desunião, deixa-se “dividir” em países do Norte e do Sul, ou entre os de Leste e Oeste. Não há uma voz autorizada no seu seio cuja respeitabilidade se imponha e que, a bem de todos, reconheça o óbvio.
Para os países que constituem a União Europeia, e por isso também para Portugal, estes sinais induzem uma preocupação geral que não é despicienda e tem de ser ponderada muito a sério.
Não é concebível à luz da história do Continente Europeu que, nos tempos que correm, a União não possua uma força militar dissuasora. Acordou recentemente para tal exigência estratégica, mas é tarde. Assiste, impotente, a horríveis calamidades provocadas pela guerra, nas suas fronteiras, a que começa a ser insensível, mais por impotência que por sentimento. Estamos numa encruzilhada difícil.
Os ventos que agitam hoje a política mundial não são de todo favoráveis à Europa. Um conjunto de atos eleitorais a curto prazo, em países de peso político efetivo, podem permitir o ressurgir de doutrinas ideológicas há muito afastadas e que poderão enformar as políticas da União, com consequências imprevisíveis, mas que se adivinham. Com elas poderão desmoronar-se os princípios cívico-sociais e políticos de que agora beneficiamos.
Aguardemos para ver!
