Com o à-vontade permitido por já não estar na política a tempo inteiro desde 2011 posso afirmar duas coisas que resultam de uma experiência de quarenta e um anos como militante de um partido e da passagem por vários lugares no tempo em que fiz da política a minha actividade profissional.
Uma é mais ou menos consensual enquanto a outra reconheço ser polémica.
Mas polémicas é algo de que nunca fugi.
A consensual tem a ver com o facto de a política ter hoje mau nome e má fama.
Por várias razões:
Umas prendem-se com a inveja pelos cargos e desconfiança pelo seu exercício que as pessoas alimentam em relação a quem tem poder, a quem se envolve na gestão da “res” pública, faz negócios e adjudica obras, movimenta dinheiro e portanto, para alguns (infelizmente bastantes) torna-se de imediato suspeito de cometer ilícitos sejam eles quais forem.
Outra tem a ver com o facto de alguns, poucos mas levam todos por tabela, exercerem os seus cargos de forma displicente, pouco empenhada, com falta de competência e sem qualquer noção de serviço público.
Finalmente há os que no exercício dos seus cargos cometem ilegalidade e crimes, enriquecem de forma ilícita, ostentam sinais exteriores de riqueza incompatíveis com os seus salários, beneficiam ostensivamente amigos e familiares e têm ligações eticamente insustentáveis com empresas relacionadas com os cargos que desempenham. Esses, uma absoluta minoria, são os que mais dano causam à imagem da política e da generalidade dos políticos.
As coisas são o que são!
A outra afirmação que faço, e esta é a tal polémica, prende-se com o facto de considerar que os titulares de cargos políticos são genericamente mal pagos.
Do Presidente da República ao presidente da mais pequena junta de freguesia!
Mal pagos para a responsabilidade que têm, mal pagos para o volume de trabalho e de preocupações que o exercício dos cargos exige, mal pagos face à importância das decisões que têm de tomar.
E isso aplica-se especialmente ao primeiro-ministro, aos membros do governo, aos presidentes de câmara e aos vereadores.
E se isso não justifica de forma alguma que procurem “complementos de vencimento” recorrendo a expedientes e actos ilícitos, até porque só vai para a política quem quer e quando se vai conhecem-se as regras do jogo, devia contribuir para que os cidadãos olhassem para o exercício desses cargos com mais respeito e maior consideração.
E não é por haver más excepções, e nada representativas do todo, que a generalidade dos políticos e detentores de cargos públicos merece ser metida num “saco” de suspeição onde para alguns parecem caber todos.
Em suma considero que se para a questão da remuneração dos políticos não existe outra solução que não seja o Parlamento ganhar a coragem que nunca teve (claro que não é um tema popular…) e olhar para o assunto com sensatez e noção das realidades já para o mau nome da política existirão soluções mais fáceis de tomar e que gerarão certamente muito menor impopularidade.
E está na ética uma dessas soluções.
Exercer os cargos com ética, com transparência, sem dar azo a ambiguidades ou dúvidas quanto à interpretação das leis, fugir de situações nebulosas, não misturar o que não é misturável ainda que no limite a lei o permita mas a ética o desaconselhe, é uma das formas que cada político tem para melhorar a imagem da sua actividade.
Só está na política quem quer.
E por isso, mesmo que às vezes com nuances pessoais desagradáveis e até injustas, nada como exercer os cargos dentro do velho e sábio princípio de que “à mulher de César não basta ser séria também tem de o parecer”.
É o melhor para todos.
E não conheço ninguém que se tenha arrependido de gerir a “res” pública com esse princípio eticamente irrepreensível!
