O tecto era, para mim, um mundo estranho. Um dia, deixou de o ser. O tecto era um mundo despercebido. Um dia, percebi-o sem o perceber.
Não aceitar a depressão é terrivelmente cansativo. A energia que se coloca no acto de a manter em segredo seria bem melhor gasta a tratá-la.
Ninguém gosta de revelar fraquezas, mas a verdade é que não tenho, neste momento, qualquer problema em falar sobre um mal com o qual vivo. Espero que outras pessoas possam vir a fazer o mesmo. Sem tabus.
Porque os há. A depressão é dificilmente explicável. Parece cliché, mas, só quem por lá passa é que sabe. No entanto, nada nos impede de tentar (e ainda bem).
Voltando à fraqueza, façamos o seguinte exercício: pensemos que a depressão não é sinónimo de fraqueza: é antes uma demonstração de quebra por parte de alguém que foi forte durante demasiado tempo.
Há pessoas que pensam que ser depressivo é estar muito triste. É verdade que a tristeza faz parte do mal, mas calar ou parar também. E perder a vontade (só porque sim). De (quase) tudo.
E depois vem a incompreensão. E a desvalorização.
A depressão não nos permite decidir se devemos (ou não) seguir em frente: simplesmente, não se consegue ver à frente. Como explicar a falta de capacidade, a apatia? Toda esta incompreensão tem consequências nas nossas vidas, a vários níveis.
Ter vontade de procurar tratamento, de ser ajudado, de assumir, de aceitar, é mais importante do que ter vontade de seguir em frente. Seguir em frente virá depois, quando houver a vontade de ter vontade.
A depressão não é o fim do mundo: aceitemos que tudo existe por uma razão. Sem a dor, valorizaríamos o quê, exactamente? Há (muito) mais mundo para além do mundo do meu tecto.
Carlos Gustavo, o Segundo
