Ontem, 22 de agosto de 2017, Graça Fonseca deu uma entrevista ao Diário de Notícias em que se assumiu homossexual. 22 de agosto de 2017, repito.
É relevante, para as suas funções, saber que a Secretária de Estado da Modernização Administrativa do Governo de Portugal é lésbica? Não. Mas é muito relevante que o tenha dito numa entrevista a 22 de agosto de 2017 e isso seja notícia. Porque é notícia.
Porque é um marco na política portuguesa: pela primeira vez (que me lembre) uma figura pública, em exercício de funções políticas, assume a sua homossexualidade perante todos. Não devia sê-lo já. Mas é.
É 22 de agosto de 2017. Segunda metade da segunda década do Século XXI. E é a primeira vez que algum político em funções o assume.
Portugal é um país conservador, mas, felizmente, longe de extremismos e discriminações que observamos pelo Mundo inteiro. Contudo, muito deste lado positivo reside numa espécie de “pacto” em que uns não falam e os outros não criticam.
No país ideal, onde eu gostaria mesmo de viver, esta não era uma notícia nem um facto marcante. A liberdade sexual de cada um permitia que a orientação não fosse tabu. Perfeito, perfeito era que a orientação sexual não precisasse sequer de um rótulo e pudéssemos assumir que somos todos seres humanos que amam outros seres humanos.
Ontem, 22 de agosto de 2017, além de vários elogios, Graça Fonseca foi também criticada nas redes sociais e caixas de comentários de jornais. Mais que criticada, insultada. Pior que qualquer uma das duas coisas: foi questionado o interesse e a relevância deste facto. No fundo, a Secretária de Estado ousou interromper o “pacto estabelecido” e decidiu assumir, colocando-se em posição de ouvir aquilo que muitas vezes se abafa. E isto mostra bem a relevância da sua afirmação.
Felizmente, a orientação sexual de Graça Fonseca não é barreira à sua carreira política. Lésbica ou não, é hoje uma das referências políticas maiores na área da transformação digital do Estado e da Modernização Administrativa das entidades públicas.
Hoje, 23 de agosto de 2017, Graça Fonseca passa a representar para mim duas marcas de profunda modernidade. Quer um estado ágil e atento à transformação do mundo e não tem medo de romper com o “pacto estabelecido” e assumir a sua orientação sexual.
Que o final da segunda década do século XXI seja uma oportunidade de celebrar o amor. Em todas as suas formas.
