1963 – Comecei a trabalhar no mês de Julho daquele ano e, desse modo, contribuía com os meus cinquenta e três escudos e sessenta centavos semanais, para o parco orçamento de uma família de dez elementos.
O orgulho com que, todos os sábados, entregava a féria, fazia crescer a esperança de um natal melhor ou, pelo menos, não tão apertado.
Colocar o sapatinho ou a chanca junto da lareira, era o último ritual (depois das batatas com bacalhau, da aletria e das rabanadas), da ceia de natal, sabendo que, no dia seguinte, lá estariam os minúsculos quadradinhos de chocolate, embrulhados em “prata” de cores brilhantes.
Pela manhã, depois de lavar a cara e pentear a “meia cabeleira baixa”, fui ver o sapato e lá estavam, os mesmos chocolates, atados num fio dourado.
Depois de os retirar, fiquei a olhar, como que paralisado, para dentro do sapato. Lá dentro brilhava uma moeda de cinco escudos.
A tremer, de emoção e de frio, perante o silêncio das irmãs e dos irmãos, não pude conter a lágrima, quando um deles disse: O nosso Quim já é homem!
1972 – Tinha chegado a Bissau no dia 12 de Dezembro, precisamente um ano depois de ter casado, vindo da “Metrópole”, de onde partira no dia 5, um mês depois de ter nascido o meu primeiro filho.
Enquanto o batalhão se instalou nos arredores da cidade, eu (radiotelegrafista) e outros especialistas, ficamos no quartel-general para aperfeiçoar a especialidade.
Numa das saídas, acompanhei o meu amigo Santos, a visitar uma família, conhecida dele, que vivia na Guiné.
A avaliar pelo entusiasmo com que o receberam, deveriam ter uma forte ligação, confirmada pelo convite, no qual fui incluído, para passar a noite de consoada com eles.
Quando chegou o dia, esperado com grande expectativa, compramos prendas para a família e fomos para a caserna tratar de nos aperaltar.
Abro o armário e reparo que, em cima dele, estava uma folha com a mensagem: “Apresentar-se às 18 horas no comando, fardado e com arma, para fazer guarda ao quartel”.
O mundo caiu, desejei bom natal ao Santos e, nessa noite, enquanto punha num aerograma, a minha desdita, duas lágrimas saltaram.
Uma por passar o primeiro natal longe da família e o primeiro do meu filho, a outra por ter perdido a consoada junto dos amigos do meu amigo.
2017 – Há previsão de chuva, a partir do dia de natal mas, nos dias que o antecedem, está sol e parece que toda a gente decidiu levar os carros para os centros comerciais.
As vias de entrada/saída da cidade estão literalmente entupidas, a qualquer hora do dia.
Nos super ou hipermercados, os carrinhos de compras esgotam. Entram vazios e saem a abarrotar, empurrados pelo pai, mãe e filhos, sabendo que até ao último dia, há-de faltar mais alguma coisa.
A foto com o “pai natal” que oferece guloseimas, os jingle bells que, ininterruptamente, andam no ar, a longa fila para embrulhar os presentes, constituem a essência do natal, nos dias que correm.
Apesar consumismo, Boas Festas a todos!
Joaquim Teixeira é militante do Bloco de Esquerda e é sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.


