“Às vezes aqui faz frio
Às vezes eu fico imóvel
Pairando no Vazio
As vezes aqui faz frio”
-Perfeito Vazio, Xutos e Pontapés
O Vitória ganhou. Conquistamos 3 pontos, quebramos um ciclo negativo de 5 jogos sem vencer e subimos na tabela.
É isso que fica do jogo de ontem. Um jogo em que o importante era vencer. Não importava como, com que diferença de golos, com ou sem qualidade de jogo. Ontem o importante era vencer e permitir que o estado de apatia da equipa fosse substituído por uma dose de esperança que ainda lhes permita lutar pelo quinto lugar.
O regresso às vitórias, a capacidade de, mesmo depois de terem perdido o controlo do jogo e acabando por sofrer um golo desnecessário, a equipa ter tido a capacidade de voltar a pegar as rédeas do jogo e dar a reviravolta no marcador é aquilo que ficará nas nossas memórias.
Não foi uma ótima exibição, fizemos os mínimos, mas ontem nada disto importava. Importavam apenas os 3 pontos.
Pelo menos era isto que eu me tentava convencer…
Foi com enorme agrado que vi o estádio a encher-se numa tarde de sol de Domingo num período menos bom para o Vitória.
Este amor é algo realmente especial, não é?
Depois de uma série de derrotas e péssimas exibições este amor mantém-se inabalável. Um amor que aguenta a privação de vitórias, que não pede nada em troca e que resiste a todas as humilhações.
Um amor sobrevive a tudo. Um amor que não vive só de vitórias. Um amor primitivo e simples: gostamos do Vitória porque sim, gostamos do Vitória porque gostamos. Simples assim. Sem pedir nada em troca.
Na realidade isso não é exactamente verdade. Ser vitoriano é ser exigente. Nós exigimos sempre mais daqueles que representam o nosso clube. Queremos entrega, dedicação, empenho. Queremos garra e amor à camisola.
Esta era a época de dar o salto. Já o dissemos várias vezes, tentamos compreender que as coisas nem sempre correm como queremos, mas penso que é inevitável olhar para aquele grupo de jogadores no relvado quase que perdidos e não ter vontade de lhes berrar para jogarem com garra do exército do Rei.
Nós sabemos que não é fácil jogar aqui, que a nossa exigência e o peso deste emblema possa ser assustador, mas jamais deixaremos de exigir.
Ontem eu entrei no estádio com o pensamento de “só importa vencer, não interessa a qualidade de jogo em campo”, mas a realidade é que importa. A realidade é que mesmo terminando o jogo com uma vitória, eu não fui feliz no D. Afonso Henriques.
A hostilidade do jogo do Braga já desapareceu. O ressentimento diminuiu. A raiva desapareceu. Em vez disso, eu fui invadida por apatia, um sentimento muito mais perigoso.
Independente do resultado, o D. Afonso Henriques sempre foi o meu lugar especial, ver e apoiar o Vitória era a coisa que eu mais amava na vida, mas esta época eu perdi um pouco daquele prazer de ver o Vitória.
Apoiar o Vitória tornou-se em algo que faço apenas por amor.
Jogo após jogo, derrota após derrota eu vou ao próximo jogo na esperança que aquele seja o momento da reviravolta, o momento em que vamos pôr um fim à época de Murphy e voltaremos a jogar futebol, mas a realidade é que esse momento nunca chega e a menos de dois meses para o final da época tudo o que eu desejo é que isto acabe.
Que acabem com o sofrimento que é ver os jogos do Vitória esta época.
Depois da hostilidade, do ressentimento e da raiva, ontem eu fui invadida pela apatia.
Ontem, eu estava na minha segunda casa, o Vitória estava a jogar e eu dei por mim imóvel, a sentir-me a pairar no vazio, naquele perfeito vazio.
Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.


