Cerca das dez e meia, de uma manhã de Domingo, tendo de me deslocar a uma localidade, nos subúrbios de Guimarães, entro num café para passar o tempo que faltava para o compromisso que ali me levava.
A minha entrada interrompeu a conversa, que o funcionário/proprietário mantinha com o único cliente presente. Ao fundo um televisor transmitia a missa, com o som demasiado alto, para os meus ouvidos.
-Bom dia! Um café cheio, por favor.
Duas fortes pancadas na caixa do café usado, levaram-me a interrompê-lo e questioná-lo sobre o som do aparelho.
-É para a minha mulher ouvir a santa missa.
Antes que prosseguisse, comuniquei-lhe que não queria o café e dirigi-me para a porta, com intenção de sair.
-Se fosse futebol, não se importava!
Meia volta e regresso ao balcão.
-Desculpe, como disse que se chamava?
-Alberto!
-Joaquim, muito prazer! E estendi-lhe a mão, perante a qual hesitou mas acabou por corresponder.
-Voltei porque o senhor não foi justo comigo, (ia retrucar mas não lhe dei tempo) partiu de pressupostos errados, uma vez que não me conhece e quando o que aqui está em causa, não é o programa em si, mas o som.
Queria oferecer-me o café, mas fiz-lhe entender que, quem estava a mais, era eu e retirei-me. Com o passar das horas e mesmo no dia seguinte, não parava de pensar no ocorrido e as questões iam surgindo. Sendo a Igreja Católica, uma associação de cariz espiritual, qual a necessidade de fazer alarido através de altifalantes, megafones e outros meios de som?
Porque será que, nas festas dedicadas ao santo A) ou santa B), que deveriam ser celebrados na intimidade do templo, organizam cortejos com fanfarras a abrir e passeiam caríssimos andores com imagens, pelas ruas das paróquias?
Que dizer da rivalidade entre paróquias, a ver qual leva mais andores, chegando a pedir imagens emprestadas, apenas com o intuito de bater o record da vizinha?
A retransmissão, através de altifalantes, de actos religiosos, oriundos de meios de comunicação social, quando toda a gente tem rádio ou televisão.
No mês de Maio, o problema atinge o cúmulo, com a transmissão do “terço”, todos os dias, numa clara falta de respeito para quem não está interessado naquele programa.
O forte investimento em meios de propaganda, com o intuito de promover o turismo religioso, deixando para trás, o que deveria ser a essência da associação, baralha o pensamento dos militantes.
De quem se autoproclama dona da moral e bons costumes, espera-se mais comedimento e menos espalhafato.
Joaquim Teixeira é militante do Bloco de Esquerda e é sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.


