Regresso esta semana às crónicas quinzenais do Duas Caras, após uma interrupção para férias. Volto no seguimento de um fim-de-semana de grande atividade cultural, muita dela de rua, parte significativa dela no Centro Histórico da cidade, e de dimensão e índole contrastante com alguma discussão, por vezes sem sentido, que antecedeu este momento.
Guimarães diferencia-se de múltiplas cidades da Europa por vários aspetos. Um deles é, certamente, a dimensão patrimonial e cultural que resulta de anos de aposta na preservação e valorização do edificado, por um lado, e na criação e apresentação de produtos culturais marcantes, por outro.
A vivência das cidades faz-se, naturalmente, também de grandes eventos massificados e mais generalistas. Mas se pretendemos neste território uma diferenciação e maior valorização, devemos procurar os elementos mais disruptivos ou não replicáveis noutras paragens.
O Guimarães Allegro do passado fim-de-semana é um bom exemplo de “fato à medida”. Se temos um Centro Histórico classificado pela UNESCO como Património Mundial, uma Orquestra sinfónica “residente”, um Conservatório de Música a formar jovens talentos, capacidade instalada para efetuar uma programação cuidada e apelativa, é particularmente feliz misturar todos estes elementos, possibilitado, também, pelas boas relações existentes entre as diversas instituições.
Tudo isto misturando artistas locais, nomes altamente relevantes da música clássica, novos talentos nacionais e oferta mais abrangente e popular.
A música erudita é, aliás, terreno fértil por estas bandas em diversos momentos ao longo do ano. Residências da Orquestra de Guimarães e Quarteto de Cordas, concertos da Orquestra do Norte ou Festival Internacional de Música Religiosa, são particularmente bem complementados por outras iniciativas de entidades como a Sociedade Musical, o Convívio ou a Associação Artística Vimaranense.
Como em várias outras áreas, há tudo a ganhar quando abandonamos os formalismos e outras barreiras habitualmente associadas aos eventos mais tradicionais em salas convencionais, e abordamos o cidadão de forma intrusiva na sua vivência diária.
Esta é uma fórmula replicável e sem necessariamente ter o cunho público ou institucional na promoção desta prática. Sairemos todos a ganhar quebrando as fronteiras, aproximando públicos potenciais e surpreendendo quem visita ou vive os espaços públicos.
Em suma, diferenciar um território pela sua unicidade, apelar a novos públicos com a quebra de barreiras formais e surpreender quem passa com apontamentos de qualidade são metas e desafios a vencer constantemente. Com isto estamos também a dar mais Cidade à Cidade que temos.
