Valsa de um homem carente

Picheleiro de profissão, era gabado pelos clientes. “Trabalhava bem e deixava tudo impecável quando terminava os arranjos. E sempre foi muito certinho com as contas”, garante uma vizinha. Magro, desmazelado, sujo, José, 47 anos, deambula pelas ruas até ao ponto de referência que ainda preserva, o café que fica no rés-do-chão do prédio onde viveu até ao passado mês de agosto. Anda à cata de coriscas na parca esplanada que outrora serviu para relaxar depois de um dia de trabalho.

Foi notícia de jornal por apresentar comportamentos perigosos para si e para a vizinhança: depois de a mente deixar de o obrigar ao cumprimento de pagamentos de água, luz e gás, o T2 do número 91 da rua D. João IV emanava um cheiro nauseabundo a carne putrefacta. Fazia lume dentro de casa, esquecia as panelas no fogo, levava lixo da rua para dentro do prédio, vomitava no elevador, tocava às campainhas durante a madrugada. Os vizinhos relatam dias de angústia: temiam por si e por José.

Várias foram as denúncias feitas aos bombeiros, à delegacia de saúde e à junta de freguesia. A 11 de agosto, uma das vizinhas usou o último recurso e, em desespero, chamou a polícia dizendo que José estava dentro de casa mas que não respondia aos chamamentos dos vizinhos. Em minutos, a PSP, já useira e vezeira nas visitas a José, apareceu. O internamento compulsivo não era uma opção na medida em que os seus “comportamentos desviantes” não aconteciam em espaço público, esclareceu, na altura, a delegada de saúde face aos sucessivos apelos dos vizinhos. Teria de ir por vontade própria para o hospital. José estava visivelmente desnutrido, doente e incapaz de se alimentar. Há vários dias que usava a mesma roupa, prova inequívoca de que José não conseguia, sequer, tratar da sua própria higiene.

Nessa noite de 11 de agosto, José finalmente aceitou ser internado. Os vizinhos, que queriam ver as suas habitações a salvo e salvar José de si próprio, respiraram de alívio. No dia seguinte, o senhorio da casa removeu todo o entulho acumulado no apartamento, pintou-o e colocou um anúncio para arrendamento. Dias mais tarde, José regressou, já sem ter onde dormir, fugido do hospital. Voltou ao Nossa Senhora da Oliveira e lá ficou internado até os serviços sociais lhe darem destino. A filha mantinha-se incontactável.

– E hoje, ela já atendeu o telefone? – perguntava  às auxiliares hospitalares.
– Ainda não, senhor José, ainda não. – esperançavam-no.

Não se lhe conhece família para além dessa filha que permaneceu ausente. Os vizinhos iam vê-lo a medo, receosos de que as autoridades procurassem neles a responsabilidade por José. Após umas semanas de internamento, José foi transferido para uma instituição de saúde no Porto. Apareceu há uns dias, de novo, no café de sempre, mais gordo e com o discurso endireitado. Até já conseguia engolir o pão em vez de o esfarelar para um cinzeiro, como era seu hábito.

Sem paradeiro conhecido, José reiniciou o seu processo de degradação, as roupas voltaram a ficar muito sujas, a barba cresceu, o apetite sumiu e José voltou à forma de trapo humano. Diz-se que fugiu da instituição em que estava no Porto. É o que se conta na rua.

O caso de José foi devidamente acompanhado pela Junta de Freguesia de Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião. As soluções institucionais, ainda que difíceis, foram aparecendo. Mas é difícil subjugar a liberdade de um homem, mesmo quando se encontra consumido pela doença mental. Apesar de dizer que está numa casa social na Arcela, há noites em que José dorme sob o coberto dos tanques da recentemente recuperada rua Rei do Pegu. O picheleiro, conhecido no meio por “Turbo”, não encaixa nesta valsa institucional e anda agora ao ritmo da carência que a solidão impinge.

Por Catarina Castro Abreu
NR: “Valsa de um homem carente” é uma canção com música e letra de Jorge Palma.