A queda de Alepo e o terrorismo na Europa

Já abordei, ainda que noutro contexto, o tema. Criticava e tentava a explicação do porquê da passividade da Europa e do mundo ocidental, perante a tragédia que, todos os dias, imagens arrepiantes nos obrigam a pensar que a barbárie está de volta.

Sabemos, até por experiência própria, o que é uma guerra. Quem nunca teve a infelicidade de conviver com um cenário desses, por muitas imagens que veja (e as que nos chegam são arrepiantes) não consegue alcançar o malefício para a humanidade de tal flagelo.

O que Alepo nos mostra, com uma ferocidade sem limites, é de uma violência inaudita e obriga-nos, se quisermos compreender o mundo em que vivemos, a perceber até onde pode chegar a fraqueza humana. A máscara de ódio, ambição ou qualquer argumento similar que se possa invocar para justificar tal conduta, não resiste a uma veemente condenação.

Sabemos que os países do ocidente não têm as mãos limpas, quanto à origem desta guerra tão feroz. Agora estão a pagar tal ato com a humilhação a que estão a ser sujeitos, pois não foram capazes de perceber não estarem apetrechados para uma convulsão militar desta natureza.

Perderam pela sua própria incapacidade e perderam também porque os Estados Unidos vivem num período de transição governamental sem estratégia, nem política nem militar, para o período pós Obama.

Percebendo isto, a Rússia e os seus aliados, particularmente por razões geoestratégicas, passearam a sua velha esquadra pelas “margens” das águas territoriais dos países Europeus, demonstrando o seu poderio militar, ainda que ferrugento. Pouco tempo depois alcançaram o seu objetivo.

O silêncio dos líderes europeus, face à jactância da Rússia, é tema de ponderação e profunda preocupação. Esta assume perante o mundo, que o seu país não tem fronteiras. Um desafio destes impõe uma profunda reflexão de todos nós. Esta ambição, que assenta sobretudo no sonho de um império perdido, imporia à Europa o acordar da letargia em que caiu.

Pensamos que já é tarde, todavia o que mais me intriga, no meio de tudo isto, é a inexistência estratégica e a falta de cultura histórico-política dos atuais governantes do velho continente. Estes não conhecem o passado tumultuoso dos países europeus e, pior ainda, parecem não saber que há ciclos da vida dos povos que se repetem e para os quais devemos estar sempre preparados. Bastava que conhecessem, por exemplo, a história da Roma antiga. Quando, no Século IV a.C., tomada por Breno, um chefe militar celta, que lhe impôs a rendição, ao pretender negociar a retirada deste, Breno colocou a sua pesada espada num dos pratos da balança que ia pesar o ouro da libertação e proclamou a celebre frase “ai dos vencidos”.

Os europeus deveriam começar a preparar a balança e procurar o ouro que anda por aí acumulado nalguns Fundos, sem fundo, pois não tarda que a cobiça dos brenos dos nossos dias nos possam bater à porta, agora com requintes que àquela data não existiam.

O resultado da queda de Alepo às mãos dos Russos, Iranianos, Sírios e outros aliados seus provocou, de imediato, uma onda de instabilidade na Europa. A fragilidade demonstrada para combater o seu inimigo externo transfere-se, agora, para dentro das suas fronteiras. A confusão está instalada, hoje em Berlim, na Suíça ou Ancara, ontem em Bruxelas, Paris ou Nice, ou ainda em países do Médio Oriente, deixam-nos a certeza que o tipo de guerra clássica acabou. Na guerra dos nossos dias, não há vencidos nem vencedores.

Os estilhaços de Alepo introduziram o medo na Europa e noutros continentes. Hoje é sempre possível encontrar um qualquer radical pronto a morrer e a perturbar uma sociedade que sente ter de conviver com este pesadelo.

O esforço policial e da rede dos serviços especiais de defesa que colaboram entre si, são fundamentais para minorar as consequências deste fenómeno dos nossos dias. Porém, não será completamente eficaz todo o seu esforço. Isto significa, infelizmente, insegurança para todos nós.

Vamos continuar a sentir esta conduta radical e adaptar-nos-emos ao que o futuro nos reserva, com a certeza que a Europa segura já não existe de todo. A esperança (é uma frase feita) é a última coisa a morrer, mas a preocupação dos governantes dos vários países e também dos seus cidadãos, exigem um estado de alerta máximo. Isto confere-nos a obrigação de darmos a resposta possível, mas firme, àqueles que perturbam a ordem estabelecida e que tanto sacrifício nos custou no pós guerra. É uma responsabilidade que a todos deve ser pedida, para bem do nosso futuro coletivo.

António Magalhães, 72 anos, é presidente, desde 2013, da Assembleia Municipal de Guimarães. Anteriormente, liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).