O Natal dos nossos compatriotas que vivem fora do país

O Natal é, para a maioria de todos nós, a festa mais emblemática do ano. Está profundamente alicerçada nas nossas raízes judaico-cristãs, e mesmo os menos sensíveis a estes conceitos vivem hoje a quadra natalícia de uma forma muito especial, tantos os complementos inovadores que a sociedade de consumo resolveu introduzir-lhe.

Por muito resilientes que sejamos, é difícil escapar ao frenesim presente no quotidiano de todos nós, assumido (ou quase imposto) das formas mais subtis, mas habitualmente eficazes na quadra natalícia.

Deixando este axioma como um princípio geral, debrucemo-nos agora sobre o que se passa com os nossos compatriotas que vivem e trabalham no estrangeiro e tentemos perscrutar a lava de sentimentos que nesta data lhes vai na alma.

Tive, ao longo de muitos anos, a possibilidade de conviver com portugueses residentes em várias partes do globo. O sentido de todos relativo à sua Pátria é comum, mas a saudade da sua terra de origem, em datas específicas como a celebração do Natal, não é assumida com a mesma sensibilidade, lá no fundo do seu ser. A saudade da Pátria, da sua aldeia, dos seus familiares e amigos, da gastronomia, dos cheiros das coisas, toca-os profundamente. A angústia da ausência não é igualmente relevada por todos, o que se compreende.

Aqueles que se integraram, que têm vida estável para si e para os seus e que de quando em vez vêm até nós, suportam melhor a ausência que outros para os quais a aventura não foi tão sorridente.

Conheci portugueses perfeitamente entrosados na sociedade onde escolheram viver. Tinham família organizada, participavam nas estruturas sociais locais, eram considerados. Na prática estavam em sua casa. Pude apreciar, especificamente, o que descrevo, no Uruguai e no Brasil.

Na Europa, e bem mais recentemente que os exemplos que atrás citei, particularmente em França, visitei algumas dezenas de “casas de Portugal” e já não encontrei, em muitas delas, situações similares às atrás referenciadas. Aí, por razões de índole vária, sente-se mais intenso o latejar da portugalidade em cada um daqueles corações, que se abrem perante nós à primeira oportunidade. Vivem o dilema da segunda e até da terceira gerações que, com maior capacidade de integração social e cívica, se vão distanciando dos hábitos, dos costumes e das origens dos seus pais e avós.

O queixume que estes nossos irmãos nos transmitem em qualquer período, agudiza-se e num turbilhão de saudade em épocas distintas do ano: o Natal e o mês de agosto.

São cada vez menos os que, nestas alturas, chegam até nós. Mas os que ficam, por questões laborais ou outras, sofrem duramente a falta dos “cheiros” do seu torrão natal.

Para estes nossos compatriotas vai a nossa admiração, pela sua tenacidade e pela resistência física e psicológica de que dão provas. A exuberância sentida, que connosco partilham, sempre que um feito engrandece Portugal, fá-los explodir de orgulho e simultaneamente suaviza a dureza do seu dia-a-dia.

Os nossos emigrantes merecem o nosso profundo respeito, pela maneira como são reconhecidos nos países que os acolhem. Sabemos bem que há exceções, já as sentimos, mas estas não mancham a sua imagem altamente positiva, sendo considerados por todos quantos apreciam a capacidade do seu laborioso trabalho, como meio de subsistência.

Rendamos-lhe, neste Natal, uma homenagem sincera. A quantos discordem desta apreciação, proponho-lhes que passem dois ou três meses fora do nosso “jardim à beira mar plantado”. Então, compreenderão o que é ser estrangeiro fora de Portugal.

 

Nota: Noutra altura, abordarei o porquê dos nossos compatriotas, particularmente em França, não terem uma representação política local que melhor acautele os seus legítimos interesses.

António Magalhães, 72 anos, é presidente, desde 2013, da Assembleia Municipal de Guimarães. Anteriormente, liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).