Acidentes evitáveis no mundo rural

Hoje, tendo em linha de conta a evidência que recentemente se deu ao tema, entendi também abordar o assunto, vestindo a pele de um curioso e, por isso, atento.

Os acidentes com tratores no mundo rural, até pela violência da morte das vítimas, foi algo que sempre me impressionou. A imprensa, salvo situações excecionais, trata o tema de uma forma tão fugaz que passa quase sempre despercebida do grande público. No entanto, notícias há de questões do quotidiano, sem sustentação de relevância mínima, salvo a espuma do fátuo, que enchem páginas e tempos de antena da nossa imprensa, sabe-se lá porquê!

O que me incentiva agora é, tão só, juntar a minha voz aos que combatem o quase silêncio à volta das pequenas tragédias que no setor se verificam, estatisticamente, a cada semana que passa.

De facto, ainda que em muitos casos se possam assacar responsabilidades às vítimas desses acidentes, nem por isso a sociedade em geral e sobretudo quem de direito, deve menorizar este pequeno grande drama do mundo rural.

Salvo melhor opinião, os media não relevam este tipo de acidente, ou porque ocorrem no mundo rural, ou porque as vítimas, na sua maioria, são pessoas a quem alguém classificou, abjetamente, de peste grisalha, ou ainda porque o trabalho do campo não merece da nossa sociedade o status de outras profissões emergentes resultantes da globalização.

Com todos estes considerandos, e outros, a suportarem a atividade agrícola e os servidores da mesma, premeia-se a insensibilidade das pequenas desgraças deste fenómeno.

A agricultura continua a ser o nosso patinho feio da atividade económica. É certo que em várias regiões do país há empresários de sucesso de pequena, média e grande dimensão. Louvemos aqueles que, contra a corrente, apostam na exploração desta sua riqueza, mas também do país, trabalhando a terra.

O que se passa com a nossa floresta, com a agricultura de subsistência que se praticava no minifúndio e agora está semimorta e ainda com tantas outras pequenas áreas relativas ao cultivo da terra, impõem que nós olhemos com respeito todos quantos nela laboram e fazem dela o seu ganha-pão.

A desertificação do interior, por variadíssimas razões, mas também pelo seu abandono campesino, contribuiu para o esbanjar de uma riqueza que faz imensa falta ao país já hoje e porventura no futuro, com maior acuidade. Saúdo o ressurgimento que aqui e ali se vai notando neste domínio, mas dói perceber que há potencialidades abandonadas por falta de apoios, desviados para outros fins sem qualquer sustentabilidade, o que sempre deveria exigir-se da aplicação dos dinheiros públicos.

Voltando ao título deste meu despretensioso raciocínio, cabe aqui também uma palavra que quero deixar em favor da proteção da vida dos profissionais da agricultura. Sabemos que é possível minorar o número de mortes resultantes de acidentes agrícolas com tratores. A formação profissional específica, que deve ser imposta a todos, a intervenção mais assertiva das autoridades para que os facilitismos diminuam e, também, o recurso a subsídios a quem não tivesse possibilidades para adquirir o mais seguro equipamento poupariam vidas e com elas auxiliariam a economia fragilizada de um setor carente de mão-de-obra.

Se se for assertivo esmiuçando o que por aí se passa, concluiremos facilmente que é possível, sem mais despesa pública, apoiar a segurança de quem trabalha e, em simultâneo, ativar a economia local. Depois, para que não se argumente como tantas vezes se faz, e acontece, deve verificar-se a atribuição dos subsídios concedidos. Procedendo assim, julgo, evitar-se-iam mortes, desenvolver-se-ia uma componente da nossa agricultura, inovando-a também por este processo.

Este é um conceito que concede ao trabalho rural a atenção que merece e, aplicando-o, sufragar-se-ia a dor de tantas famílias que veem partir, de uma forma abrupta e trágica, os seus entes queridos.

António Magalhães, 72 anos, é presidente, desde 2013, da Assembleia Municipal de Guimarães. Anteriormente, liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).