Mário Soares

Nos tempos que correm difícil seria a crónica de hoje não versar sobre a figura de Mário Soares e o seu papel no Portugal das últimas décadas.

Não escrevi nada sobre o assunto, nem no meu blogue nem nas minhas páginas de facebook, pelo que esta crónica será mesmo o único espaço em que me referirei ao político agora desaparecido.

Tenho de Mário Soares muitas memórias, umas boas, outras assim-assim e outras más, que de alguma forma reparto por quatro períodos da sua vida pública, antes e depois do 25 de Abril, que é a única que interessa.

O primeiro período tem a ver com a resistência à ditadura, os exílios em S.Tomé e em Paris, a fundação do PS e o regresso a Portugal depois do 25 de Abril.

Não tenho uma memória muito presente (era um miúdo nessa altura) mas lembro-me de ouvir falar nele e especialmente na fundação de um partido político, algo impensável no Portugal do Estado Novo, que uns diziam socialista e outros comunista ao sabor da falta de informação desses tempos.

O segundo período, esse sim, dele tenho uma memória muito mais presente até porque corresponde, na minha modesta opinião, ao “melhor” Mário Soares de que me recordo e tem a ver com os dois primeiros anos de democracia.

Pese embora uma passagem algo atribulada pelos governos provisórios e pelo complexo processo de saída de Portugal de África, em que muitos o diabolizaram sem que ele o merecesse, Soares afirmou-se nos anos dificílimos do PREC como um líder corajoso e um lutador pela liberdade recusando o regresso a uma ditadura, desta vez de cariz ideológico bem diferente mas nem por isso menos ditadura.

Foram os tempos do PREC, da Fonte Luminosa, da resistência ao conselho de revolução à extrema-esquerda e ao PCP, da luta por um Portugal livre e por uma democracia baseada num Estado de direito.

Não foi só Soares e o PS (ao contrário do que os próprios às vezes pareciam pensar) que estiveram nessa luta mas Soares foi, sem sombra de dúvida, o seu principal rosto e o que teve nela uma liderança mais visível.

Desse tempo recordo, algures em 1975, uma vinda dele a Guimarães em que apeando-se do carro no Toural tinha largas centenas pessoas à sua espera (nem todas do PS…) que o acompanharam em cortejo pela rua de Santo António até ao largo Navarros de Andrade onde da sede da varanda do PS (num primeiro andar por cima de uma pastelaria ainda existente na esquina das ruas de Gil Vicente e Francisco Agra) se dirigiu à multidão através de um megafone sendo entusiasticamente aplaudido.

Depois há um terceiro período.

O de Mário Soares primeiro-ministro, depois deputado da oposição, novamente primeiro-ministro e finalmente Presidente da República e que se estendeu ao longo de duas décadas entre 1976 e 1996.

Não deixou grande memória como primeiro – ministro porque, com excepção da adesão de Portugal à então CEE formalizada em 1985 já nos seus últimos dias de governo, o que fica mais evidente são as recordações da austeridade, das intervenções do FMI, de um PM que não dominava os dossiers e de governos sem rumo e sem grande coerência.

Como deputado na oposição aos governos da AD liderada por Sá Carneiro fica também uma memória menor assente em chicana politica e em ataques sem quartel nem limites aos seus adversários políticos assentes em insinuações e calúnias que ao tempo muita revolta geraram.

Como Presidente da República, entre 1986 e 1996, fica a memória de um primeiro mandato em que foi de facto um presidente abrangente, de uma isenção apreciável no tratamento com partidos e cooperação com o governo.

Foi nesse tempo que lançou as presidências abertas, a primeira das quais em Guimarães logo em 1986, que foram um tempo de aproximação entre o PR e o povo e de que Soares muito beneficiaria para ser facilmente reeleito em 1991 com um apoio muito abrangente de vários partidos entre os quais PS e PSD.

No segundo mandato tudo mudou e Soares foi um líder de facção, protagonizando uma oposição ao governo de todas as maneiras e feitios (nomeadamente com o congresso “Portugal e o Futuro”) e sendo um permanente factor de instabilidade que só não foi maior porque o governo dispunha de sólida maioria parlamentar e resistiu a todas as investidas presidenciais.

Uma vez saído de Belém, em 1996, Soares entra no quarto período que é aquele de que certamente a História guardará a sua pior recordação.

Fruto da sua paixão pela política e pelo combate político, mas também da incapacidade em perceber que aquele já não era o seu tempo, Soares lançou-se numa candidatura ao parlamento europeu que nada acrescentou ao seu percurso, embarcou numa candidatura presidencial sem sentido e que apenas serviu para uma pesadíssima derrota face a Cavaco Silva (e a Manuel Alegre) e passou os seus últimos anos de intervenção cívica junto de quem sempre estivera separado, a defender muito do que negara e combatera durante décadas, a tomar posições que eram a negação do que sempre fora o seu pensamento político e o seu trajecto de homem público.

Mário Soares ficará por mérito próprio, com as suas virtudes e defeitos, os seus erros e acertos, na História de Portugal.

A própria História definirá um dia, com a necessária distância temporal, qual o seu papel nela e qual a imagem que dele o futuro poderá guardar.

Luís Cirilo Carvalho, 57 anos, é deputado municipal eleito pelas listas do PSD. Já liderou a concelhia do partido e foi deputado à Assembleia da República 1999 e 2005 na bancada social-democrata. Foi governador civil entre 2002 e 2003. Passou pelo Vitória Sport Clube como dirigente.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.