Mário Soares Sempre

Nestes dias mais recentes, tudo foi dito sobre a figura maior da democracia portuguesa do Séc. XX. O que sobressaiu de comentadores especializados, de companheiros das causas políticas, do povo anónimo e mesmo dos seus adversários com estatuto é suficiente para reafirmar a dimensão do grande político que foi Mário Soares, a quem Portugal muito deve.

Há, todavia, centenas de portugueses que ao longo do percurso de vida política do seu líder, assumiram cargos intermédios da vida pública nacional, que vivenciaram episódios de carácter local ou regional, interiorizados apenas por quem os viveu. Isso não lhes retira dimensão, nem distorce, antes pelo contrário, complementa, o que foi o homem da res pública, o cidadão, o companheiro Mário Soares.

Tive a honra de privar com Mário Soares, no quadro que acabo de descrever, durante quase três décadas. Conheci bem a sua maneira de ser, os seus métodos de trabalho, a sua coragem e mesmo os seus hábitos quando se dedicava à causa pública. Admirava-lhe sobretudo as suas capacidades, a perceção que tinha dos fenómenos que o envolviam e a rápida leitura que fazia, visando a solução dos mesmos.

O conhecimento que possuía das características do povo português permitia-lhe encontrar as soluções possíveis para as propostas que tantos e tantos lhe faziam em plena campanha eleitoral.

Quando, em ação no terreno, pressentia que o rumo dos acontecimentos dava sinais de menor êxito, impunha-nos uma alteração da estratégia. Fazia-o, quase sempre, com um cunho pedagógico, tão firme e convincente, que a ninguém deixava dúvidas da necessidade da mudança do caminho a seguir.

Numas eleições em que o PS teve um dos piores resultados após o advento da democracia, em Guimarães, com o habitual fervor partidário, fizemos a tradicional arruada. Saímos da sede, na rua Gil Vicente, percorrendo, como de costume, a rua Paio Galvão, o Toural e a rua de Santo António, com regresso à sede. A certa altura do percurso, apreendendo os sinais do povo que se apinhava nos passeios a aplaudir-nos, mas também de quem assistia ao cortejo político das varandas em silêncio, disse-me: “Já perdemos as eleições”. De seguida, foi-me dando uma explicação sociológica do que via e do que se estava a passar, pressentindo esses sinais acontecerem também no país. E, de facto, assim foi.

Após o início do seu primeiro mandato como Presidente da República, Mário Soares honrou-nos ao escolher Guimarães para inaugurar as Presidências Abertas, uma nova forma de contactar com o povo, o que ele tão bem sabia fazer. Foi uma semana de intensa atividade política centralizada na nossa cidade, relevando os nossos valores materiais e imateriais e tudo o que Guimarães representa para a fundação da nacionalidade.

Lamentavelmente, a Assembleia Municipal de Guimarães então em funções não soube estar à altura do seu gesto, negando-lhe a Medalha de Honra da Cidade, antes votada por unanimidade na Câmara Municipal.

Esta falta de dimensão política que, há data, alguns, poucos, revelaram, por mesquinhez e ingratidão ideológica, foi corrigida em 1991, sendo-lhe entregue a merecida condecoração honorífica no dia 24 de junho, altura em que presidiu à Sessão Solene, no dia Um de Portugal. Na mesma data, inaugurou algumas obras de reabilitação urbana, cuja continuidade, lenta mas sustentada, elevou o Centro Histórico de Guimarães ao estatuto de Património da Humanidade, em 2001.

Aquando da última campanha eleitoral, em 2006, para a Presidência da República de que fui mandatário, era visível o esforço e a garra que punha na sua mensagem, apesar dos seus oitenta e um anos. Era o animador, o entusiasta e o primeiro defensor dos seus propósitos. Não se deixava abater por sondagens ou comentários que os seus adversários faziam, a quem respondia sempre com muita ironia. Porém, muito subtil mas sem desânimo, durante períodos que intervalavam o trabalho no terreno, deixava-nos perceber a ingente tarefa que nos esperava para sairmos vencedores.

De Mário Soares ficará para nós o que também marcou a alma da maioria dos portugueses. Registo as suas qualidades excecionais de democrata convicto, possuidor de uma coragem exemplar, tolerante, defensor intransigente da liberdade – bandeira maior que sempre empunhou com soberbo garbo. Esta simbiose de valores contribuiu para a admiração, o respeito e o estatuto de homem de estado que adquiriu em Portugal, na Europa e até no mundo, reconhecido por companheiros e mesmo por adversários.

Amigo de tantas jornadas em prol da justiça social, preenchidas de tantos episódios nacionais e locais, foi brilhante e arrebatador em períodos marcantes da história do Portugal de Abril. Por tal ter testemunhado, jamais o esquecerei.

Obrigado Dr. Mário Soares pelo muito que lhe devo e por tudo que fez por Portugal em prol da democracia e da liberdade. Até sempre companheiro.

António Magalhães, 72 anos, é presidente, desde 2013, da Assembleia Municipal de Guimarães. Anteriormente, liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).