Os Salta-Pocinhas

Ainda o simpático (pelo menos para os que o bajulavam) dr. Ricardo Salgado, esse mesmo, o do BES, não sonharia em ser “o dono disto tudo” e já o PS de Guimarães assim se comportava na relação com os outros partidos e essencialmente na postura perante a comunidade vimaranense.

Fruto de sucessivas maiorias absolutas, que terão criado nos socialistas uma aura de infalibilidade acompanhada pela inevitável sensação de absoluta impunidade, e dos erros estratégicos dos adversários (há que admiti-lo sem rebuço) o PS sempre se achou dono de Guimarães.

Ponto!

E em função disso agiu e age como se isto fosse tudo dele.

E fá-lo a diversos níveis.

Na cultura, no desporto, no associativismo, na comunicação social, tudo o PS tenta dominar, manipular e municipalizar para pôr as instituições ao seu serviço e ao serviço das clientelas que tanto poder atraiu e cuja “fome” se revela cada vez mais insaciável como o PSD não se tem cansado de denunciar face a vários exemplos de má despesa pública do município.

É uma questão velha, conhecida, sem novidades no “modus operandi” dos dirigentes socialistas que mudam eles mas não mudam os métodos.

Uma das áreas em que essa forma de agir se revelou ao longo dos anos como imagem de marca dos dirigentes socialistas foi uma atracção sem freio, que não a dignidade de muitos dos abordados, por convidar autarcas do PSD e da CDU a transferirem-se para o PS e por eles concorrerem às mesmas freguesias que tinham ganho pelos partidos da oposição.

Não sei se por falta de gente capaz no seu seio, se por total ausência de vergonha de quem convida e de quem aceita, se por uma visão canhestramente deturpada do que é viver em democracia com respeito por todos os partidos, a verdade é que os socialistas sempre adoraram ir aos outros partidos buscar os seus autarcas de freguesia.

Este ano, uma vez mais, a tentativa de pilhagem está em curso.

Ao ponto de o próprio presidente de câmara, primeiro responsável por essa “compra” de cristãos novos do socialismo, aproveitar um evento do PS para anunciar com grande satisfação algumas das novas “conquistas”(?),fruto dessa peculiar forma de estar na política, e não os projectos para o futuro como seria de esperar de quem em principio tencionará construir o seu programa eleitoral com base em ideias próprias e não copiadas do PSD, como também já tem acontecido.

Devo dizer, em boa verdade, que não fiquei convencido, nem surpreendido nem sequer aborrecido com esses anúncios do PS e do presidente de câmara.

Não fiquei convencido porque pelo menos num dos casos nada me garante que seja verdade dada a forma insólita como Domingos Bragança se referiu ao potencial candidato a mudar de cor partidária.

Precisamente como “potencial”, ou seja, não certo, pondo em causa a honorabilidade de quem em diversas circunstâncias reafirmou ao PSD que voltaria a ser seu candidato.

Não fiquei surpreendido porque não só conheço muito bem a forma de agir do PS de Guimarães (recordo sempre, entre muitos exemplos possíveis, o que se passou em Arosa e Castelões em 1997) como também há muito que no PSD sabíamos da vontade socialista de levar para as suas hostes alguns dos autarcas de freguesia do PSD.

E também não ficarei aborrecido por essas deserções caso se confirmem na totalidade.

Porque ao PSD não faltam, nunca faltaram e nunca faltarão pessoas de qualidade política, prestígio social e carácter a toda a prova que aceitem concorrer pelo partido com base em compromissos políticos e laços de confiança pessoal sem outro objectivo que não seja o de servirem capazmente as populações.

E esses, a esmagadora maioria, tornam irrelevantes aqueles que abusivamente se sentaram entre nós fazendo crer, a quem neles acreditou, que estavam de corpo e alma com um projecto quando afinal apenas andavam em busca de promoção que lhes valorizasse o “passe” como acontece nas transferências futebolísticas .

Sinceramente acho que nos casos confirmados o PS fez bem em os convidar e eles fizeram muito bem em aceitar os convites.

Porque em boa verdade estão muito bem uns para os outros!

P.S. Infelizmente para eles, os “transferidos”, o que agora fizeram foi como comprar um bilhete para o Titanic depois de ele já ter batido no icebergue.

Mas não é nada que não mereçam…

Luís Cirilo Carvalho, 57 anos, é deputado municipal eleito pelas listas do PSD. Já liderou a concelhia do partido e foi deputado à Assembleia da República 1999 e 2005 na bancada social-democrata. Foi governador civil entre 2002 e 2003. Passou pelo Vitória Sport Clube como dirigente.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.