Os Estados Unidos da América, hoje

Habitualmente, aquilo que nos preocupa exige de nós uma atenção particular, não tanto o que nos pode vir a acontecer no futuro próximo, mas sim os problemas ou tomadas de posição que mexam com o nosso quotidiano. É natural que assim seja.

Há uns anos a esta parte, com o advento da globalização, para o bem e para o mal, assistiu-se a uma mudança de paradigma que revolucionou a vida de todos nós. As inovações de toda a ordem conseguidas, mas sobretudo o relacionamento entre os povos, até à interdependência dos mesmos, implica que, até para a defesa dos interesses mais comezinhos, não percamos de vista as mutações, distantes ou próximas, que se vão verificando à nossa volta.

Este tipo de raciocínio justifica, por razões óbvias, continuarmos a prestar atenção ao que se passa nos EUA.

Partamos daquilo que se considera a ordem internacional estabelecida e vejamos os exemplos recentes das alterações que estão a verificar-se em certas regiões do globo. Atentemos nas decisões já assumidas pelo Presidente Trump, após a sua tomada de posse. Verificaremos, então, que algo de mais profundo, nesta dimensão de equilíbrios, pode estar a bater-nos à porta.

O insólito, já esperado mas insólito, de certas decisões, o distanciamento e a insensibilidade com que atua ao definir as suas políticas, começa a fazer o seu caminho para espanto de alguns e a preocupação de muitos mais.

Com maior ou menor espavento, mais bravata menos bravata, Trump está a cumprir aquilo que prometeu. Fá-lo com tal celeridade que até os diretamente atingidos vão sendo surpreendidos por tão raro afã. Tudo isto, para vizinhos e aliados nas decisões de grande folego que tem tomado, constitui naturais pesadelos.

As reações dos países já atingidos, por decisões recentes, estão envoltas num manto de diplomacia como é usual. Porém, deixam perpassar um mal-estar contido, mas nem por isso menos preocupante. A história diz-nos que o início da alteração da ordem mundial pode começar por uma aparente questão menor. Depois, face aos interesses em jogo, vai ganhando dimensões, muitas vezes difíceis de reverter, como sabemos.

O que se está a passar com aquilo que se denominou de primavera árabe é disso um trágico exemplo onde o ocidente sujou as mãos. A sobranceria e a gula de uns quantos resultou numa tragédia de tal dimensão para a qual não se vislumbra o fim.

Se agora, por medidas populistas, assentes em conceitos teocêntricos do poder, um qualquer “profeta” governa a maior potência mundial, pode desencadear-se um novo turbilhão em qualquer parte do globo e tudo o que conhecemos (que já não está bem), se assim for, tudo será posto em causa.

Chegados aqui, façamos uma autocritica global e perguntemos: Por que se chegou a este estado de coisas? É do senso comum que se as desigualdades continuarem a ser tão escandalosas quanto o são, se oito indivíduos possuírem a riqueza de metade da população mundial, ninguém com bom senso garantirá que o rastilho do ódio não possa vir a ser ateado, como aliás já vai acontecendo aqui ou ali.

Os poderosos devem ter isto em mente. Os cidadãos desses países têm a responsabilidade de os fazer arrepiar caminho, pois nem uns nem outros possuem a legitimidade de nos tirar a esperança de uma vida digna e em paz.

Será pedir demais?

António Magalhães, 72 anos, é presidente, desde 2013, da Assembleia Municipal de Guimarães. Anteriormente, liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).