Nasce em fevereiro o primeiro bebé refugiado em Guimarães

Está por dias o nascimento do primeiro bebé refugiado em Guimarães. É filho de um casal sírio que foi acolhido na cidade-berço juntamente com a filha de três anos. Vivem em Sande São Clemente e é graças ao apoio do Centro Sociocultural e Desportivo daquela freguesia que hoje têm uma casa e aulas de Português, essenciais para cumprirem um desejo: assentar em Guimarães.

“Mar…me…la…da”. Depois do cumprimento habitual esta é a primeira palavra portuguesa que Bourak Kaka e Rasha Sheikh aprendem em Português, naquela que é a terceira aula dada por Luísa Teixeira, uma professora do 1.º ciclo que a reforma não abrandou a vontade de ensinar. “Temos que arranjar estas motivações, fiz esta marmelada para eles e assim aprendem a palavra. Tem de ser de uma forma mais prática”, explica a professora ao Duas Caras.

O próximo passo é recortar o vocábulo de uma folha e colá-lo no recipiente da marmelada. Também viram fotografias de marmelos recorrendo às imagens do Google no telemóvel e outras vezes usam uma aplicação que fotografa a palavra em Português e a traduz para árabe. Nem sempre útil, assuma-se. Tudo serve para comunicar quando não há nada que faça a ponte entre o Português e o Árabe. Não sabem Inglês e os gestos acabam por ser a forma mais simples para se interagir com este casal de sírios e, de uma maneira geral, com todos os refugiados. “Têm uma menina que daqui a dois anos vai para a escola e em casa vai precisar do apoio dos pais e eles não sabem escrever. É por isso que têm comigo a parte do ensino da escrita. Um trabalho a longo prazo e acho que vai correr muito bem”, considera Luísa Teixeira.

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Centro de Sande São Clemente conseguiu voluntários para lecionar 12 horas de aulas de Português.

“Hoje está chuva. No Inverno há chuva e neve. Estamos em janeiro. Que dia é?”, aponta para o calendário. “Hoje é dia 30 de janeiro, segunda-feira”, continua a professora com mais de 35 anos de experiência a dar aulas em Souto Santa Maria. “Ontem foi? Do…”, introduz Luísa Teixeira. “Do…min…go”, completa Bourak Kaka. Rasha Sheikh vai revendo outros exercícios porque faltou à aula anterior por se sentir muito cansada. Chegou já grávida a Guimarães e, neste momento, está na reta final para o nascimento do menino que é, a bem dizer, também filho da solidariedade europeia, portuguesa e vimaranense para com os refugiados que fogem da pobreza e da guerra que assolam os respetivos países – a maioria dos que rumam a Guimarães vêm da Síria e da Eritreia.

“Me…ni…no, Me…ni…na”, continua a professora na aula recorrendo a muitas fichas, imagens, cartões de sílabas, tesoura e cola para conseguir ensinar este casal a escrever. “Sa…pa…to”, foi a palavra que se aprendeu a seguir para depois a desconstruir e assim aprender “Pa…to”. “Eu decidi trabalhar com o método das 28 palavras porque é o método que eu já usava na escola e tinha muito bons resultados. Os meninos chegavam ao natal e já sabiam ler porque partem da palavra e dos sons e vão construindo as palavras. Com a aula quase a terminar chegou a hora de receberem as fichas de trabalho que terão de resolver em casa e de apontarem quais as letras do alfabeto que foram aprendidas – oito no total. Há uma parte da gramática que vai ser mais difícil, mas vamos devagar”, comentou a professora ao Duas Caras.

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Luísa Teixeira não abandonou a paixão do ensino e, apesar de reformada, disponibiliza tempo para o apoio aos refugiados.

O Centro Sociocultural e Desportivo de Sande São Clemente conseguiu que este casal tivesse um acompanhamento linguístico de duas horas diárias de segunda a sábado, perfazendo um total de 12 horas de ensino do Português garantidas por seis voluntárias, curiosamente todas mulheres. A psicóloga Céu Cosme é quem tem vindo a lidar mais de perto com este casal e a agilizar a angariação de voluntários para esta tarefa. Para o efeito contactou diretamente a PAR que enviou a listagem de todos os voluntários da zona de Guimarães que se tinham inscrito na plataforma para apoiar o acolhimento de refugiados. Também o Centro Sociocultural se tinha inscrito há mais de um ano disponibilizando-se a ajudar: “Na altura demos a indicação de que poderíamos receber uma família com seis elementos, acontece que apenas nos reencaminharam uma com três elementos e agora é impensável pô-los a coabitar com outra família. De momento não estamos a pensar alargar o acolhimento a outros refugiados”.

Bourak Kaka e Rasha Sheikh têm 39 e 32 anos respetivamente e chegaram em outubro de 2016 à freguesia de Sande (São Clemente), trazendo, ao colo, Ghenwa, a filha de três anos que frequenta a creche e, no ventre, Shadi, um menino, cujo nome foi escolhido em homenagem ao irmão de Rasha que morreu recentemente em combate na Síria. O bebé também se vai chamar Tiago em jeito de agradecimento e para assumir a naturalidade portuguesa.

Na Síria deixaram ainda mais filhos de um agregado familiar complexo que tentaram explicar recorrendo aos “milagrosos” gestos e às fotografias no telemóvel: Rasha Sheikh, além destes dois filhos de Bourak Kaka, é viúva e tem mais duas filhas menores. E Bourak Kaka tem mais quatro filhos, de duas mulheres. Todos eles ainda se encontram na Síria.

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Foto foi tirada no âmbito de uma ecografia 3D, realizada no Guimarães Shopping. (Direitos Reservados)

“O reagrupamento é um processo demorado e só pode ser pedido quando a situação deles cá estiver regularizada, porque ainda têm uma residência provisória. Mas será mais fácil trazer as filhas de Rasha porque são menores e o outro cuidador não existe”, explica a psicóloga. O caso de Bourak é um processo mais difícil porque, embora seja importante garantir-lhe o direito de preservação da identidade cultural, é complicado conseguir justificar o reagrupamento porque em Portugal a poligamia é proibida.

Balanço do acolhimento: os que vieram, os que ficaram e os que estão para vir

Há cerca de um ano foram acolhidos os primeiros quatro dos 35 refugiados que Guimarães estimava receber no âmbito do Plano de Acolhimento aos Refugiados. Hazaa Hazaa, Omar Hazaa, Mohamad Hazaa e Basel chegaram a 05 de fevereiro e ficaram instalados no Recolhimento das Trinas, no Centro Histórico. Apenas Basel permanece em Guimarães. O pai e os dois filhos rumaram a Hamburgo, na Alemanha, em meados de dezembro passado, enquanto a família que permanecia na Síria conseguiu fazer a viagem até à Grécia.

Até agosto de 2016, o consórcio “Guimarães Acolhe” tinha recebido 25 refugiados, altura em que os dois primeiros decidiram abandonar o país “por conta e risco” rumo à França e à Alemanha. Mas, ao que conseguiu apurar o Duas Caras, pelo menos, mais oito decidiram fazer o mesmo ao longo destes meses. Dois casais, um deles com dois filhos, foram para França. Dois deles são doentes renais e partiram na esperança de conseguirem realizar transplantes de rins. E outro casal, à espera de um bebé que estava previsto nascer em dezembro, decidiu partir pouco tempo antes da criança vir ao mundo.

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O casal foi recebido pelo CSD de Sande São Clemente no âmbito de um protocolo direto com a Plataforma de Acolhimento aos Refugiados (PAR) – funcionando, por isso, de forma independente do consórcio “Guimarães Acolhe”.

Um total de 13 pessoas acolhidas em Guimarães já se ausentou do país. Nota para o facto destas pessoas quando decidem partir perdem o estatuto de refugiado e o apoio que tinham ao abrigo do protocolo com o Estado Português e a União Europeia.

Este programa social de acolhimento, antes destas saídas, já tinha redefinido uma nova meta, propondo-se a receber, até dezembro de 2016, 45 pessoas com necessidades de proteção, mas não conseguiu cumprir esse objetivo e neste momento deverão estar cerca de 18 refugiados instalados na cidade-berço: um casal e os três filhos chegaram em novembro e um pessoa que veio em setembro.

O que tem motivado estes refugiados a decidir arriscar, mais uma vez, começar tudo do zero noutro país, é, segundo a vereadora da Ação Social, Paula Oliveira, o facto de terem a família dispersa pela Europa. A vereadora da Ação Social da Câmara Municipal de Guimarães diz ainda que Guimarães é das poucas autarquias que se disponibiliza a receber qualquer refugiado independentemente da condição e se são família ou não.

A mais recente novidade é que as 30 pessoas da comunidade yazidi que Portugal se propôs a acolher têm como destino Guimarães, no âmbito do programa de recolocação da União Europeia. Paula Oliveira sobre este assunto, apesar de confirmar a informação avançada pelo ministro-Adjunto Eduardo Cabrita, não comunicou a data prevista da chegada destas três dezenas de refugiados e nem esclareceu acerca dos procedimentos logísticos que envolvem este polémico acolhimento – a Grécia chegou a acusar Portugal de “discriminar tendo em conta a raça”, mas Atenas não chegou a impedir o avanço do mesmo.

Texto e Fotos: Sofia Pires