Canil de Guimarães acusado de dar animais doentes para adoção

Maria Lima foi buscar ao Canil Municipal de Guimarães uma cadela que no dia seguinte acabou internada com gastroenterite. A indignação em relação ao procedimento do Canil, ao deixar seguir para adoção um animal doente, já resultou em mais de 1500 partilhas, cerca de 1000 reações e 400 comentários no Facebook entre eles, cerca de 10 provenientes de pessoas que dizem ter uma história semelhante para contar envolvendo o Canil Municipal de Guimarães.

A 26 de janeiro Maria Lima adotou no Canil Municipal de Guimarães uma cadela para oferecer de prenda de anos à filha. Os dias que se seguiram foram de tristeza e revolta, como a própria refere numa publicação no Facebook, porque a cadelinha de três meses esteve uma semana internada com uma gastroenterite severa.

Andreia Freitas, ao ler a história de Maria Lima e os comentários dos outros testemunhos partilhados, pensou: “Meu Deus, isso então é recorrente”. Há cerca de oito anos atrás a vimaranense adotou no Canil Municipal de Guimarães uma cadela que morreu passados três dias e, após vários anos, a segunda tentativa de adoção de um cão resultou na morte do animal, depois de estar apenas um dia com a nova família. Pelo meio, decidiu adotar um gato muito bebé que também não foi entregue à família adotiva nas melhores condições de saúde. “Levei-o para casa e alimentei-o através de biberão. No dia seguinte ele não andava e não segurava a cabeça. Eu troquei o leite que me haviam recomendado por leite normal e coloquei-o a dormir comigo para o vigiar. No dia seguinte já apresentava melhoras e respondia a pequenas brincadeiras. A veterinária tinha dito que o mais certo era ele falecer mas resistiu até à idade adulta”, lembra Andreia Freitas. “Eu e os meus filhos sofremos imenso mas, pelo que estou a ver, o que pensava ser azar meu não é disso que se trata, é algo muito grave”, critica.

kiara
Maria Lima foi buscar ao Canil Municipal de Guimarães uma cadela que no dia seguinte acabou internada com gastroenterite. Fez a queixa formal, passado uma semana, no mesmo dia em que a Kiara teve alta e pode, finalmente, regressar a casa.

“Eu entrei e apareceram logo vários cachorrinhos, todos molhadinhos, todos sujos”, começa por contar, ao Duas Caras, a autora da publicação do Facebook que gerou esta “onda” de revolta. E, no meio de tantos, a Kiara estava sentada no chão à chuva, eu chamei-a, pela grade fiz-lhe umas festinhas e lambeu-me a mão. Disse ao funcionário ‘já não quero escolher mais, eu levo esta’”, recorda. Maria Lima ficou encantada com a cadela preta e branca “muito amorosa”, embora estivesse “muito parada, sem reação de brincar”. “Mas o funcionário disse que tava [sic] bem, eu trouxe-a para casa e o que mais temia era verdade: ela vinha muito doente. Quanta revolta eu estou a sentir pela atitude do funcionário. Ele sabia que a cadelinha estava doente e nada fez”, desabafou a 28 de janeiro no Facebook.

Ao Duas Caras Maria Lima referiu ainda que funcionário “pegou num spray e deitou no pelo da bichinha”.

A parte que eu vi [do Canil] era lastimável. E como ela, estavam lá mais doentes. Estavam deitados no chão à chuva, não é normal um cão estar deitado à chuva. Era um cheiro horrível e cheguei a casa e dei-lhe logo um banho”. Nesse mesmo dia deu sinais da doença e começou a vomitar. “No dia seguinte levei-a à veterinária”, completa.

Foi também neste estado que Di Ferreira encontrou a Sandy, uma cadela com menos de um mês que acabou por morrer de parvovirose: “Ela vinha toda suja do Canil. O pelo cheirava a excrementos, vinha todo melado”, descreveu ao Duas Caras. “Tinha sido encontrada num esgoto abandonada, ao que me apercebi, desde que a tinham encontrado até à data que a fui buscar, ainda não lhe tinham dado banho. O que é grave”, acrescenta. Tudo aconteceu há quatro anos e Di Ferreira embora tenha achado que a cadela “era bastante quietinha” saiu do Canil com a garantia de que “estava saudável” e “que já tinha tomado as primeiras vacinas”. “O certo é que nem boletim de vacinas a comprovar me deram”, recorda. A Sandy durou quatro dias, vomitava sangue e as fezes eram sangue. “Tentei de tudo. Fui confrontar a Dr.ª Guida e ela internou a minha cadela, garantindo-me que a minha bichinha iria sobreviver, porém, ainda assim, pedi à Dr.ª Guida que caso a cadela morresse para me contactar logo para eu levantar o corpo para ser eu a enterrar”, conta. Durante esses dias nos diversos contactos com o Canil Municipal de Guimarães, Di Ferreira recebia o feedback de que “a Sandy estava a recuperar”. Foi informada ao quarto dia que a cadela tinha morrido e que já teria sido cremada. “Chorei, reclamei, fiz queixa mas nada aconteceu. Nesse Canil os animais são tratados como lixo e todos os que lá trabalham, na minha honesta opinião, são desumanos com os animais”, atira.

sandy_di-ferreira
Apesar de ter pedido para que Sandy lhe fosse entregue em caso de morte, o Canil acabou por cremar a cadela de Di Ferreira.

À publicação de Maria Lima responderam dezenas de pessoas, entre as quais duas mãos cheias de gente que vivenciaram o mesmo, sendo que a maioria com um desfecho menos feliz.

Toby, o cão de Isabel Lobo Rodrigues, em novembro do ano passado, estava desaparecido desde quinta-feira ao início da tarde e foi recolhido no dia a seguir pelo Canil Municipal de Guimarães. A dona soube, por vizinhos, na segunda-feira que tinha sido encontrado. Ligou para o Canil e pediram para enviar uma fotografia dele por email. “Mandei logo a seguir ao telefonema, deveriam ser umas 9h30, 10h00. Ligaram-me quase a seguir a dizer que não era ele. Eu acabei por lá ir porque aquilo não me convenceu”, admite. À hora do almoço dirigiu-se ao Canil para reclamar o cão. “Segundo eles o meu cão tinha morrido nesse dia de manhã, tinham chegado à casota onde ele estava e já estava morto”.

Isabel Lobo Rodrigues pediu para o ver, mas disseram-lhe que já tinha sido recolhido com outros animais para cremar. “E neste cenário estava o funcionário, a secretária e a veterinária, todos com a conversa que ele já era velhinho, estava cego e debilitado. O funcionário deu a desculpa da coleira não ser da mesma cor e outras coisas que eu fiquei tão atordoada que nem sei. Tanta explicação faz-me acreditar que ele foi deixado para morrer”, confessa Isabel Lobo Rodrigues. “Pensavam que não tinha dono! Perguntaram se tinha chip, ou seja, eles nem verificam. O meu cão morreu sozinho e sabe-se lá como. Na altura saí de lá a chorar. O Toby esteve connosco 14 anos, desde os dois meses de vida, custou e ainda custa. Não fiz nenhuma denúncia porque infelizmente não tinha provas para isso”, continua.

O assunto ficou “encerrado” até dar de caras com a publicação a relatar a história de Kiara. “Quando vi o testemunho da Maria Lima, foi através de uma partilha de uma amiga, pensei: ‘Está aqui a prova que eles não são honestos e vou contar o que se passou comigo, pode ser mais um caso que ajude a denunciar o que realmente lá se passa’”.

Entretanto, ao Duas Caras a veterinária municipal, Guida Brito, escusou-se a prestar esclarecimentos dizendo que não estava autorizada a falar remetendo explicações para o vice-presidente da CMG, Amadeu Portilha.

O regulamento esclarece que o “Canil/gatil municipal declina quaisquer responsabilidades por doenças parasitárias ou infecto-contagiosas contraídas, mortes ou acidentes ocorridos, durante a estadia dos animais”. Mas o vereador confirma que os cães e os gatos devem ser cedidos para adoção depois do parecer favorável do médico veterinário municipal, o que pressupõe, à partida, a inexistência de problemas de saúde. Ao Duas Caras, o vereador admitiu que, os animais que estejam doentes não deveriam ser dados para adoção.

Se as coisas não foram conforme o regulamento a senhora veterinária terá que explicar, não sou eu. A única pessoa que lhe pode responder a isso é a médica veterinária. Se não for cumprido o regulamento eu atuarei imediatamente em conformidade”, garantiu vice-presidente da CMG, Amadeu Portilha.

Maria Lima foi à CMG reclamar e embora o funcionário que a tenha atendido garantisse que “ia falar com o agente competente que estava à frente disso”, decidiu, posteriormente, voltar lá para fazer uma reclamação por escrito, “para ter uma prova”. A queixa formal seguiu a 1 de fevereiro, no mesmo dia em que a Kiara, passado uma semana de internamento, teve alta. Os gastos envolvidos rondam os 250 euros, mas não é isso que Maria Lima pretende com este protesto. “É muita crueldade, é preciso castigá-los de alguma maneira”, considera.

Amadeu Portilha entretanto encaminhou a reclamação para a veterinária municipal que, por motivos pessoais, se encontra ausente do serviço e, como tal, o Duas Caras não conseguiu voltar a entrar em contacto com Guida Brito para tentar obter novos esclarecimentos.

Texto: Sofia Pires
Fotos: Direitos Reservados