As Eleições Presidenciais Francesas

Propus-me abordar o tema pela importância de que se reveste este ato eleitoral, não apenas para a França, mas também para todos os países da União Europeia.

Já opinei, noutro momento, sobre as fragilidades, várias, da União e do distanciamento desviante que a mesma estava a assumir, face aos objetivos traçados pelos seus fundadores.

Os objetivos do projeto inicial dos “pais” da Comunidade Europeia foi altamente influenciado pela tragédia da 2ª Guerra Mundial e das suas terríveis sequelas. Os princípios que sustentavam o sonho daqueles políticos de eleição foram apreendidos e bem aceites pelos seus cidadãos, sedentos de paz, de liberdade e de progresso.

O desaparecimento natural de gerações que sofreram ou estiveram próximas dos horrores da guerra contribuiu para o fenecer, ainda que lento, dos valores imateriais, sustentáculo do êxito das suas políticas perante as populações.

Depois de um período voltado para a reconstrução da Europa, do fim da guerra fria, da queda do muro de Berlim, seguida da liberalização do comércio, que ajudou a conduzir à globalização, tudo foi mudando e não tão lentamente quanto muitos imaginavam.

Pensava, ainda há semanas, que a viragem a que estamos a assistir a um ritmo já muito acelerado continuaria a fazer o seu caminho. Enganei-me.

Pelo que se vê, face àquilo que todos os dias nos surpreende, hoje parece inevitável aceitar que o paradigma político-social está mesmo a mudar e de forma abrupta.

Os Estados Unidos foram, até à administração Obama, um guardião, ainda que fragilizado, da denominada ordem estabelecida a nível global. Este conceito, não aceite por todos é certo, é no entanto marcante no concerto das nações.

As tomadas de posição política que brotam do líder que agora governa aquela potência mundial estão a provocar uma tal turbulência que parece nada ficar como dantes.

Se formos otimistas, poderemos assumir o avisado pensamento do Papa Francisco, quando nos diz que devemos esperar para ver. Oxalá sua Santidade tenha razão!

No que às consequências imediatas destas políticas diz respeito, tal clamor vai chegando a todo o lado. Mesmo entre nós, ainda que meio envergonhados, já há seguidores que nos vão tentando fazer crer na bondade do conceito da pós-verdade.

Chegados aqui e voltando ao título que escolhi, há vários países europeus (entre os quais Portugal) que revelam profunda preocupação com o desfecho dos atos eleitorais a realizar na Europa, a curto prazo. Particularmente, o que vier a passar-se em França poderá abalar os alicerces da atual União Europeia e, com ela, operar mudanças tão profundas na vida dos europeus de muito difícil previsão.

O lema que ainda hoje é o emblemático orgulho da França moderna (a liberdade, a igualdade e a fraternidade) parece estar a perder o seu fulgor, face aos ideais totalitários da candidata de extrema-direita Marine Le Pen, tão assumida defensora dos conceitos repressivos e xenófobos.

Perante isto, é judicioso interiorizar que os valores por que sempre se pautaram os regimes democráticos estão a perder terreno. Terreno que ao longo de várias décadas permitiu a paz, o bem-estar e a qualidade de vida a milhões e milhões de seres humanos.

Por agora, o alvoroço proveniente do outro lado do Atlântico, já se faz sentir entre nós. O mundo financeiro, defensor das suas torres de marfim, não pode perder a sua hegemonia, condicionando-nos a todos.

Por isto e por tudo o mais que pode vir a acontecer à Europa, deveremos estar avisados para as consequências de uma hipotética convulsão.

Se a Europa, já tão dividida e tão frágil, optar por seguir os ditames dos mentores de políticas restritivas de direitos e valores, profundas alterações nos esperam com resultados difíceis de percecionar.

Daqui a três meses, conheceremos o veredito do eleitorado francês, e então já dissertaremos, com argumentos mais ou menos credíveis, sobre o rumo que a velha Europa pretende trilhar num futuro próximo.

Já agora, tentaremos compreender o porquê de se ter chegado até aqui!

António Magalhães, 72 anos, é presidente da Assembleia Municipal de Guimarães desde 2013. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).