Que balada comporia hoje, o Zeca?

O que cantaria a sua voz se vivesse connosco estes tempos de um Portugal avassalado aos chacais não muito diferentes daqueles que, pela música, ele combateu? Trinta anos passados da sua morte, muitos que nasceram depois de Zeca inexistir gostariam de ressuscitar a sua voz e fazer dela a bandeira de um tempo novo.

A vida de Zeca Afonso foi a de um andarilho, que andando pelo mundo foi absorvendo as realidades que o rodeavam envolvendo-se nelas. Foi assim em Portugal, em Angola, em Moçambique e noutros tantos países por onde cantou a liberdade. Mas comecemos pelo princípio.

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos completaria 88 anos. Com apenas um ano separou-se dos pais, que emigraram para Angola, onde o pai, juiz, foi colocado como delegado do Procurador da República. Permaneceu em Aveiro, cidade que o viu nascer, mas aos quatro anos rumou a Luanda, no vapor Mouzinho. Esta viagem foi, conta na sua autobiografia, a memória “mais marcante” da infância, feita dos anos que viveu com as tias, “mulheres de escapulário ao pescoço”, e, numa segunda fase, da “África imensa, de natureza inacessível que não tinha fim”.

Em Luanda fez a 1.ª classe e, depois de uma breve passagem por Aveiro, aos oito anos foi para Moçambique, para onde os pais se tinham entretanto mudado. Sonhava “nunca mais abandonar aquela terra”.

Em 1938 regressou a Portugal e ficou a cargo de um tio salazarista convicto, presidente da Câmara de Belmonte, que o fez envergar a farda da Mocidade Portuguesa. Recordou esse tempo como “o pior ano” da sua vida. Em 1940, foi para a Coimbra dos Estudantes, onde fez o Liceu e, em 1948, quando terminou os estudos, foi o “menos classificado de todo o curso por falta de aprumo militar”.

Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde exista opressão, seja a que nível for”, escreveu pouco antes de morrer.

Também ele vestiu a capa e a batina, fez serenatas, viveu a boémia da cidade dos estudantes e integrou o Orfeão Académico de Coimbra, com o qual fez digressões por Portugal, Europa e África. É neste rebuliço de juventude que conhece a humilde costureira Maria Amália, com quem se casa em segredo e de quem tem dois filhos.

Entre 1953 e 1955 cumpriu o serviço militar em Mafra e, com 21 anos, inicia-se naquele que foi, na verdade, o mester da sua vida: o ensino. Sempre à frente do seu tempo e contrariando os cânones do magistério da altura, Zeca queria fazer com que a sua “ação como professor fosse mais de caracter existencial, na medida em que queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes um espírito crítico”.

Concluiu o curso de Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em 1963 e, entretanto, divorciou-se de Maria Amália.

Zeca nunca foi desafogado financeiramente – dizia para se comer muitos “bolos com creme que tinham mais vitaminas” – e, depois de mandar os filhos viver com os avós que estão em Moçambique, pois a vida no Beco da Carqueja em Coimbra não estava fácil, também ele decide rumar de novo a África.

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Convívio após o espetáculo, em 1982, no café Oriental, em Guimarães. Zeca não está na foto porque foi descansar devido à doença.

É em 1965 que desperta definitivamente a ação para os males que desde sempre o sensibilizaram: o colonialismo, a pobreza de pão e de espírito, as diferenças sociais. De regresso “à força grande que nos seduz”, afirmou que “o baptismo político começa em África”. Afinal “estava a dois passos do oprimido”. É nesta época que conhece Zélia, a companheira que esteve a seu lado até ao fim e de quem teve mais dois filhos.

Voltou para Portugal, Setúbal especificamente, em 1967 e é lá que o conquistam para o associativismo popular e para a luta sindical na Margem Sul. Este envolvimento com os índios vale-lhe a expulsão do ensino oficial e foi sobrevivendo dando explicações particulares. Foi preso várias vezes e com a censura sempre a vampirizar cada passo seu, os jornais tratavam-no pelo anagrama Esoj Osnofa. Foi em Setúbal que deu a voz ao sonho, que finalmente se concretiza a 25 de Abril de 1974.

Aos 50 anos, depois de ter apoiado o PREC e de ter vivido sempre com intensidade a efervescência do pós-25 de Abril, mudou-se para Azeitão onde a doença irascível lhe foi matando o corpo. A maturidade e o distanciamento levaram-no a afirmar que, “embora com reservas, acreditava o suficiente no que estava a fazer e isso é o que fica”. Zeca morreu a 23 de fevereiro de 1987, o corpo sucumbiu a uma esclerose lateral amiotrófica.

Alvo de muitas homenagens, também em vida, José Afonso – assinava sempre como José Afonso – recusou a Ordem da Liberdade que o Presidente da República, Ramalho Eanes, lhe queria atribuir no ano de 1983. Em 1994, nova tentativa desta feita pelo Presidente Mário Soares que tenta condecorar, postumamente, José Afonso mas a mulher, Zélia, recusou, alegando que se Zeca não desejou a distinção em vida, também não quereria ser condecorado após a morte. Afinal, Zeca nunca quis ser “uma instituição”.

Associação Convívio lembra Zeca Afonso nos 30 anos da sua morte

A sessão está marcada para as 22h00, na sede do Convívio e contará com a presença de Arnaldo Trindade, produtor musical, numa iniciativa no âmbito d’As Noites do Convívio e que contará ainda com um representante da Associação José Afonso. A homenagem continua esta sexta-feira, 24, num espetáculo da Escola de Jazz do Convívio.

Guimarães acolheu o último espetáculo de Zeca Afonso

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Espetáculo na cooperativa têxtil Sousa Abreu

José Afonso esteve pelo menos três vezes em Guimarães. Segundo textos publicados no site da Associação José Afonso (AJA), da autoria de Torcato Ribeiro, a 23 de março de 1979, Zeca Afonso esteve pela segunda vez em Guimarães, a primeira depois do 25 de abril, numa iniciativa do jornal “Povo de Guimarães”. No concerto, que teve lugar na cooperativa têxtil Sousa Abreu – “a primeira empresa do país a entrar em auto gestão e mais tarde chamada cooperativa Fogo Posto” –, Zeca Afonso foi acompanhado pelo Carlos Guerreiro e Fausto.

Voltou a 05 de junho de 1982, no âmbito da iniciativa CIRCULTURA. No texto da AJA, Torcato Ribeiro recorda que o concerto integrou “uma iniciativa organizada pelo Centro Infantil e Cultural Popular (CICP), com o objetivo de angariar fundos para a construção de um auditório em Guimarães”. “Para o efeito, o CICP, alugou uma tenda de circo e promoveu durante dois meses uma atividade cultural diversificada, destacando-se, para além do espetáculo do Zeca, espetáculos de José Mário Branco, maestro Vitorino de Almeida, Carlos do Carmo, Salada de Frutas, Sheila, Cantaril, Tété, UHF, Lena d’ Água e Banda Atlântida, com a projeção de filmes e um debate sobre o aborto”, lê-se na página da AJA.

Este foi o último espectáculo que Zeca Afonso deu. Posteriormente, só esteve nas homenagens que lhe foram prestadas no Porto, Lisboa e Coimbra.

Texto: Catarina Castro Abreu
Fotos: As fotos são pertença do CICP e da autoria de Carlos Mesquita