A União Europeia acorda para a defesa comum

   Há cerca de dois meses e meio abordei o tema da falta de uma força militar dissuasora na Europa, face às alterações políticas que se iam verificando em vários países do globo. Escrevi, então, que só um profundo desconhecimento da Europa podia estar na base de um perigoso laxismo para manter a paz no nosso continente.

   Este pensamento, como que de repente, sofreu uma surpreendente transformação, não porque os responsáveis europeus meditassem nela, mas porque fatores externos lhe impuseram uma outra atitude. Esta, para resultar, deve implicar e envolver todos os países membros da União.

    A eleição de Trump nos EUA, a sua conduta errática em vários domínios da governação e particularmente na defesa, as consequências do Brexit e também as próximas eleições na Alemanha, na França e na Itália, fizeram soar as campainhas da realidade atual, exigindo tomadas de posição, como preocupação primeira dos governantes europeus.

   Trump não usou, nem usa, subterfúgios para dizer ao que vem. Quem julga que as suas atitudes revelam governação tacanha, está enganado. Por trás dele está uma máquina que trabalha uma outra forma de fazer política, para a qual o que conta é o resultado final dos objetivos que quer alcançar e não os cânones tradicionais que as democracias liberais praticam.

   O seu Secretário da Defesa veio dizer aos europeus, olhos nos olhos, que se querem o escudo protetor da Nato têm de pagar por isso. Quando países como a Alemanha, a França e a Espanha não cumprem o que contratualizaram dão razão a Trump e permitem-lhe esta afronta.

   Por outro lado, alguns países do Báltico, face à proximidade de um vizinho belicoso (a Rússia), estão já a tomar medidas, visando a sua militarização. Sabe-se, ainda, que a curtíssimo prazo, os teóricos das questões de defesa da União Europeia vão apresentar um documento estratégico que titulam “como organizar uma verdadeira União Europeia de defesa”.

    O facto de não relevarem a tragédia que causaram do outro lado do Mediterrâneo define-os como seres não muito preocupados com as desgraças vizinhas. O distanciamento a que têm votado as misérias alheias deveria causar-lhes vergonha cívica, pelo menos.

  Em suma: a Europa, se quiser ter relevância no concerto das Nações, precisa de ser solidária a todos os níveis e a cada momento. Lamentavelmente não tem sido assim e, por causa disso, o tardio acordar perante o perigo eminente.

   O nosso pequeno contributo na abordagem, à nossa dimensão, deste tema, visa chegar a outros cidadãos que se sintam motivados para pugnarem por um conceito de vida, não assente nos tradicionais clichês pré-fabricados.

  Ao longo da história de séculos do continente europeu, gerações e gerações foram sacrificadas no altar da crueldade e da estupidez humana. Basta surgir, como sabemos, um maníaco que se julgue predestinado, para propiciar massivos crimes hediondos, devastadores de uma sociedade que sempre aspira a viver em paz.

   O momento que atravessamos não augura nada de bom mas, com as armas que temos, deveremos pugnar para deixar aos vindouros uma doutrina profundamente humanista, condenando, enquanto é tempo, os sicários dos nossos dias. Alguns, em várias partes do nosso “universo”, já começam a mostrar os dentes, ávidos de sangue. Combatamo-los à medida da nossa responsabilidade cidadã, para que sintamos mais leve o peso da nossa conduta cívica.

António Magalhães, 72 anos, é presidente da Assembleia Municipal de Guimarães desde 2013. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).