O Bailinho da Madeira (by Pedro Martins)

De certeza que já todos viram dançar o Bailinho da Madeira: um grupo – vestido com o traje típico da ilha das flores – que dança em torno do instrumento regional típico da Madeira – o briquinho. Contudo, existe outro: trata-se do bailinho que surge nos arraiais típicos da ilha, onde se canta ao desafio e se dança em coreografias inventadas no momento.

Depois de serem a primeira equipa de futebol a aterrar no recém renomeado Aeroporto Cristiano Ronaldo (e de descobrirem o que faltava ao busto – tudo fica muito mais bonito com o cachecol do Vitória), a equipa comandada por Pedro Martins resolveu envolver-se profundamente na cultura da região e dançar o bailinho da Madeira na sua versão original, sem restrições. O quarto lugar no campeonato era o desejo, mas o apuramento para a final Taça de Portugal foi, com certeza, o som de embalo deste jogo. E isso notou-se na composição da equipa inicial.

No início do jogo todos pensávamos que Pedro Martins tinha preferido dançar o brinco que é cantado e dançado por todos, sem qualquer regra ou restrição (depois de uma época com uma consistência no onze inicial Pedro Martins resolveu apostar na equipa B e nos jogadores que geralmente se sentam no banco e isso causou alguma confusão), mas ao som da viola de arame do rajão (ou do que quer seja aquele som de gaita irritante que tocava no estádio – desculpem, mas aquilo é pior do que as vuvuzelas), os jogadores começaram aos poucos provar que não se tratava, de todo, de um improviso de certames poéticos e que o bailinho tinha sido bem ensaiado e planeado ao longo desta longa paragem no campeonato.

Se é verdade que qualquer bailarino podia entrar nesta dança (ou que pelo menos assim parecia) e que bastava querer para entrar na roda, todos os jogadores mostraram bastante capacidade para dançar (quase todos será o mais indicado – continuo sem perceber como é que Rúben Ferreira consegue entrar nesta roda). Passando de elemento para elemento, a bola lá foi rodando e a viola foi-se afinando. Aos 25 minutos já ninguém se lembrava do início aparentemente improvisado e Rafael Miranda abriu o marcador. Bailinho que é da Madeira é formado por dois versos e Texeira marcava aos 85 minutos para completar o mote.

O bailinho parecia estar afinado, a roda quase a acabar, a bola ia passando de elemento para elemento até completar a roda e voltar ao ponto de partida, mas a equipa do Nacional resolveu mostrar que aquela era a sua cidade, aquele era o seu bailinho e eles também queriam entrar na roda (a ideia de que o Nacional pode descer de divisão deixa-me um pouco triste, devo admitir – espero que consigam assegurar a manutenção desde que tal não implique o que o Moreirense desça). Cada mote consiste em dois versos de uma quadra, nós já tínhamos lançado os dois versos iniciais e, como diz a tradição, o que se segue deve responder de forma a completar a rima e o assunto. O Nacional assim o fez. Aos 90+1 minutos o Nacional reduzia a vantagem e aos 90+3 igualava o marcador…

O Vitória x Estoril estava a repetir-se (eu senti os 2 pontos a voarem para a Madeira), mas o árbitro resolveu entrar na roda e dançar um pouco, anulando o golo por carga de Cádiz sobre Sacko (nas repetições ficou mais provado que há falta, não precisamos de continuar a discutir).

O bailinho serviu para provar (será que ainda precisávamos de mais provas?) que Pedro Martins sabe o que está a fazer. Com o seu ar inocente conseguiu, contra todas as adversidades, criar uma equipa (com várias opções) que está neste momento a lutar pelo quarto lugar e a 90 minutos da final da Taça de Portugal. Depois de um Janeiro/Fevereiro negro, em que tudo parecia seguir o mau trajeto das épocas anteriores, o Vitória voltou forte (estamos há 7 jogos sem perder e com uma série de 3 vitórias nos últimos jogos) e num bom lugar para alcançar os objetivos para esta época.

Com 9 mudanças no 11 inicial, a atitude foi boa. Pedro Henrique usou a braçadeira de capitão com orgulho e isso viu-se em campo (do que estamos à espera para o segurar para a próxima época?). Prince não esteve ao mesmo nível que Pedrão, mas mesmo assim conseguiu estar bem melhor do que Rúben Ferreira que quase voltava a repetir a sua exibição em Tondela (ainda bem que Rui Costa teve coragem de assinalar a falta senão seria um Tondela 2.0). Douglas voltou a mostrar porque continua a ser o número 1 do Vitória (acho que todos nos devemos sentir felizes porque o nosso principal problema na baliza é que os guarda-redes têm tanta qualidade que é difícil escolher entre eles). Raphinha fez um bom jogo apoiado em Sacko. Texeira mostrou que merece o seu lugar no onze inicial e Rafael Miranda voltou a (e para) marcar. Marega entrou, foi atirado (?) para o chão (o que aconteceu no jogo em Guimarães passou imediatamente pela minha cabeça) e soube comportar-se como um verdadeiro Conquistador (eu sinto-me sempre orgulhosa quando acontecem coisas más em campo com o Marega e ele sabe ser superior, desculpem, não consigo evitar).

O bailinho acabou na bancada com um intimidante viking clapping chant que já se tornou mais vitoriano do que viking e que já faz parte dos nossos jogos: um aplauso lento que começa nos adeptos e serve como chamado para os jogadores que em crescente se vai tornando num continuo de aplausos e criando uma simbiose entre adeptos e jogadores.

O bailinho foi bonito (podia ter sido ainda mais se não relaxássemos depois de marcar golos), mas agora avizinha-se uma semana extremamente importante.

A segunda-mão da Taça de Portugal amanhã (sou a única que já não consegue pensar noutra coisa?) não vai ser assim tão fácil como se pode pensar – esta época apenas o Benfica conseguiu ganhar em Chaves e os valentes transmontanos já eliminaram o FC Porto e o Sporting da Taça de Portugal – e o jogo com o Tondela no Domingo em casa precisa de um desfecho diferente do da primeira volta (sim Rúben Ferreira, estou a falar para ti. Eu sei que as coisas têm corrido mal, mas sempre que entrares em campo vou estar a apoiar-te e a acreditar que vais conseguir mostrar o que vales, mas sempre que as coisas correm mal também te vou dar na cabeça).

Vamos pensar num jogo de cada vez e criar um Inferno Branco em Chaves amanhã! O Jamor está a 90 minutos de distância (podemos resolver isto no tempo regulamentar, por favor? Se não der nós continuaremos lá a apoiar, mas era simpático da vossa parte porque no dia seguinte nós temos de trabalhar cedo) e o Vitória tem equipa e capacidade para lá chegar; basta acreditar e lutar arduamente (joguem como se fosse o último jogo das vossas vidas, deixem tudo em campo e nós estaremos nas bancadas a berrar cada vez mais alto para vos apoiar)!

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.