Guimarães fidalguinha

Guimarães sempre foi uma cidade muito bonita. Quando era pequena, depois do inferno da viagem de regresso a Portugal, como outros emigrantes, qualquer entrada na cidade prometia encontrar um oásis temporário até nova viagem. Lembro-me de pensar como era fidalguinha a minha cidade. Sempre que voltava de férias descobria a mesma mistura mágica:  as frontarias nobres, a sua história, os jardins, as calçadas menos experimentadas e as suas gentes.

Nesse tempo, com os níveis de formação muito aquém do que hoje se defende, o exame da quarta classe constituía ainda um marco para a população das classes sociais menos favorecidas em Portugal.  Não obstante ter sido, então, uma criança afortunada e muito bem encaminhada no sistema de ensino francês altamente segregador logo nos primeiros anos, lá me apresentei, a pedido dos meus pais, ao dito exame da quarta classe cuja organização estava a cargo do consulado português. Antes, em casa, tiveram a preocupação de me ensinar a ler e escrever português como sabiam, com uns livrinhos que proliferavam sobre as histórias dos três pastorinhos de Fátima, único material pedagógico de apoio.

Com a beneplacência do examinador, sob proposta minha, fui convidada a falar sobre a história de Guimarães. Mesmo sem qualquer rigor científico e académico, desde logo o sucesso ficou garantido. Qualquer criança provinda de Guimarães saberia falar do seu rei e da façanha do Conquistador. Sentia-me, então, uma criança privilegiada pelas minhas origens geográficas.

Guimarães é uma cidade rica em capital humano, residentes e não residentes. Muitos partiram recentemente, numa nova odisseia para procurar melhores condições de vida. Estranhamente, não se vê ou ouve notícias sobre qualquer tentativa de aproximação às comunidades vimaranenses no estrangeiro. E é pena.

Ainda há pouco, quando Guimarães fidalguinha se alimentava de uma força operária feminina e numerosa, empregada em grandes fábricas têxteis entretanto desaparecidas ou deslocalizadas para zonas mais distantes da cidade, podia-se ver os autocarros largarem as mulheres no Toural, à hora do almoço e ao final do dia de trabalho. Parecia uma largada de pássaros esbranquiçados pelo cotão agarrado ao cabelo e às roupas. Mal punham o pé na calçada, essas mulheres de trabalho voavam no meio de um grande alvoroço, trocas de saudações e avisos de projetos caseiros que as aguardavam.

No ano em que o centro histórico de Guimarães passou a Património da Humanidade, o jornal O Povo de Guimarães editou um caderno especial que rapidamente esgotou nas bancas, o que constituiu um facto de relevo para um jornal local. Para esse caderno apontaram-se estrategicamente vários intervenientes que deixariam o seu testemunho entendido sobre o momento histórico. Carlos Poças Falcão, poeta vimaranense, autor dos versos inscritos junto aos tanques na zona de Couros, escreveu um texto muito bonito e inspirador, como era de esperar, mas ao lado do que todos os outros produziram. Esse texto que não tenho comigo, com muita pena, descrevia de uma forma poética, em traços finos de pintura e cadência musical, esse Toural, praça do povo de Guimarães, que, ano após ano, semana após semana, dia após dia, recebeu aquelas operárias do têxtil, mulheres incansáveis e de esperança, sem as quais uma parte fundamental da nossa história teria sido escrita de outra forma.

A essas mulheres, minha avó, minhas tias, minha mãe e todas as outras, presto a minha homenagem. A elas também se deve aquela mistura mágica que me marcou: Guimarães fidalguinha.

Paula Magalhães, licenciada em Ciências Económicas e Empresariais, contabilista, professora e formadora para as áreas de formação de Economia e Contabilidade, foi, entre outras intervenções políticas, deputada municipal na Assembleia Municipal de Guimarães, colaborou na redação do jornal O Povo de Guimarães, desde 1989 até ao seu desaparecimento, foi ainda diretora e presidente da direção da cooperativa, já extinta, O Povo de Guimarães, CRL.