O jogo eterno

“Alice: Quanto tempo dura o eterno?
Coelho: Às vezes apenas um segundo!”
(in Alice no País das Maravilhas).

Quando eu estiver a morrer eu sei que vou lembrar-me que o jogo de terça-feira me retirou 10 anos de vida. O meu cérebro deve ter perdido alguns neurónios e o meu coração ainda continua acelerado. Cada segundo daquele jogo pareceu uma eternidade e, para o bem e para o mal, eu vivenciei cada um daqueles segundos como se de uma eternidade de tratasse.

Na terça, o Vitória não soube entrar no jogo, sofreu um golo vergonhoso nos primeiros segundos e os jogadores andaram perdidos como baratas tontas na primeira parte. Na terça, o segurança ficou com os bilhetes, prometeu devolver no fim e eu fiquei sem provas de que estive presente naquele grande jogo. Na terça, o árbitro não assinalou um fora de jogo bastante claro. Na terça, o ambiente em Chaves foi fantástico, mas não se conseguiu ver bem futebol. Na terça o Vitória sofreu uma pesada derrota depois de sete jogos sem perder.

Contudo, quando eu estiver a morrer e pensar nos 10 anos de vida que perdi na terça, nada disso vai importar.

Nada disso vai importar porque eu vou lembrar-me de chegar a Chaves às 15h de uma terça-feira e ver a avenida pintada de preto em branco.

Nada disso vai importar porque eu vou lembrar-me de descer a colina a correr quando ouvi o “Sou Vitória”, subir ao muro do castelo, olhar para baixo e ver toda aquela multidão de cachecol no ar a entoar a música em uníssono (ok, a sintonia não era muita, mas tinha muito amor – temos de trabalhar nisto para o Jamor, pessoal!).

Nada disso vai importar porque eu vou lembrar-me do adepto vitoriano que dava as boas-vindas a Guimarães a todos os flavienses que chegavam à entrada do estádio. Dizia para se sentirem em casa, que em Guimarães toda a gente é bem tratada e conseguia roubar um sorriso de todos eles.

Nada disso vai importar porque eu vou lembrar-me das duas bancadas cheias de vitorianos a cantar músicas de apoio ao Vitória mesmo antes do jogo começar.

Nada disso vai importar porque eu vou lembrar-me das “guerras” de gritos e músicas fervorosas entre os adeptos das duas equipas que terminaram em aplausos de respeito mútuo.

Nada disso vai importar porque eu vou lembrar-me de quando agarrei a bandeira com todas as minhas forças e do quanto a minha cabeça doeu quando berrei o mais alto possível “vamos Vitória, nós conseguimos” quando sofremos o terceiro golo.

Nada disso vai importar porque eu vou lembrar-me dos dois minutos que separam o 3-0 e o 3-1 (eu juro que ainda não consigo acreditar que só se passaram 2 minutos), das lágrimas as escorrerem, das trocas de olhares de tristeza e esperança com desconhecidos que me rodeavam, da necessidade que senti de rezar (já não me lembro da última vez que tal aconteceu) e de pensar “Ó Pedro Martins, eu quero pegar no miúdo ao colo” já em modo de desespero (a sério que só foram dois minutos? Já o Coelho dizia a Alice que o eterno pode demorar um segundo).

Nada disso vai importar porque eu vou lembrar-me do peso que me saiu de cima no momento em que o Marega colocou aquela bola dentro da baliza, do sentimento de felicidade que se apoderou do meu corpo, dos abraços à mãe, ao tio, à vizinha do lado, ao senhor da cadeira de cima, à senhora da cadeira de baixo e do grito de golo que saiu das profundezas de todo o meu ser e expressou toda a minha ânsia de ganhar, todo o meu desejo de vencer, todo o sofrimento daquele jogo.

Nada disso vai importar porque eu vou lembrar-me dos dois senhores que passaram todo o jogo a reclamar do Douglas (eu nunca vou perceber estas coisas… posso recusar-me a aplaudir de pé um jogador que fez um mau jogo quando este sair, mas não o consigo insultar enquanto ele estiver em campo com o símbolo do Rei ao peito. Reclamem com os jogadores nos treinos, na rua, nas redes sociais, mas quando eles estão dentro de campo é preciso apoiá-los) e da forma como os abracei quando o Douglas defendeu o penalty (marcado pelo Braga – ironia no seu melhor).

Nada disso vai importar porque eu vou lembrar-me das lágrimas que escorreram dos meus olhos, dos risos, dos berros, do abraço caloroso à minha mãe, dos abraços a conhecidos e desconhecidos quando o árbitro resolveu decretar o fim de todo aquele sofrimento e declarar-nos os primeiros finalistas da Taça de Portugal 2017.

Quando eu estiver a morrer, os 10 anos perdidos na terça não vão importar porque aqueles 90 minutos duraram uma eternidade! Nada disso vai importar porque ESTAMOS NO JAMOR!

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.