Dos governantes e dos governados

Acordo na terça-feira passada para ler a primeira notícia que aparece no feed do meu Facebook: Tchetchénia abre campo de concentração para homossexuais. Confesso que tive de fazer um esforço mental para perceber que ano é este, que século é este, que época é esta. Vivemos na época da informação, dizem. Nunca a informação foi tão abundante e nunca a mesma foi tão acessível.

Quando, mais nova, aprendi o que foi o Holocausto e os horrores cometidos sob o regime nazi, sossegaram-me, disseram-me que nunca voltaria a acontecer, porque:

  1. O mundo não sabia dos campos de concentração, hoje não era possível porque se criaram instâncias como a ONU para que essas situações não se repitam.
  2. As pessoas eram mais ignorantes há 60 anos do que são hoje. Era mais fácil convencer pessoas de que uma determinada etnia é inferior a outra. Hoje sabe-se que todos somos iguais.

À medida que fui crescendo fui-me desassossegando. Casos como a Palestina e a Coreia do Norte mostram-me claramente que não é porque não saibamos o que se passa, que não fazemos alguma coisa. Pior ainda, não é por acharmos que os norte-coreanos ou os palestinianos sejam “raças” inferiores. É porque simplesmente não interessa a alguém ou a um conjunto de pessoas que de facto poderiam fazer alguma coisa. Não estou a falar do cidadão comum, rodeio-me de pessoas que se preocupam com aquilo que se passa no mundo e que à sua maneira e dentro das possibilidades fazem o que podem para tornarem este mundo melhor. Falo dos outros, dos auto-proclamados líderes do mundo livre, dos stakeholders da geopolítica internacional, dos nossos governantes.

Este pensamento inquieta-me cada vez mais. Em Portugal, existe uma profunda desconfiança da população face àquilo que é o sistema político e as instituições públicas. No entanto, mesmo com este sentimento de desconfiança, parte da população continua a ir votar em todas as eleições, muitas vezes sem saber os programas eleitorais ou sem grandes expectativas que estes sejam cumpridos. Não será isto perigoso? Continuamos a alimentar um sistema no qual não confiamos? Esta reflexão não serve apenas para Portugal, mas também para as instâncias europeias. Quantos europeus de revêm de facto na Europa actual? Quanto europeus sentem que as suas vozes são ouvidas e que estão de facto a ser bem representados?

Voltando à Tchetchénia, à Palestina, à Coreia do Norte, aos Estados Unidos da América de Trump, ao que está a acontecer em países como a Hungria, Polónia, Filipinas, ao estado do mundo, às vezes penso “como é que o mundo está assim e como é que chegou até aqui?” e a única resposta que tenho é que a culpa é minha, nossa, de todos nós que estamos a ver tudo isto a acontecer e estamos a deixar e a exigir tão pouco dos nossos governantes.

É tempo de começarmos a pensar se nos podermos dar ao luxo de continuar a confiar em governantes que aparentemente tudo o que conseguem fazer é tornar este mundo cada vez mais caótico e violento. É tempo de sermos nós, cidadãos comuns, a decidir em que mundo querermos viver e não nos deixarmos enganar mais com promessas de falsas democracias.

E isto é válido em todas as escalas, até a nível local.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.