E porque ainda é Abril.

A propósito da excelente reportagem de Fernanda Câncio – que podem e devem ler aqui. O título é “A grande revolução esquecida do 25 de Abril” e versa sobre a mudança do estatuto legal da mulher após a revolução.

O texto de Câncio fala-nos de um passado recente, pela qual passaram a minha mãe e as minhas avós, que é perfeitamente aterrador aos olhos de hoje. Acabo de ler o artigo e a dúvida que me assalta de imediato é “será que as mulheres tinham consciência que eram, de facto, cidadãs de segunda? Elas sentiam-se cidadãs de segunda?”. Percebo que estas perguntas vos pareçam quase inocentes, mas se há coisas que nunca cessa de me espantar é a falta de consciência de classe.

O que, contudo, me chama mais atenção no texto é o título – “a grande revolução esquecida”. Há uns meses comprei uma Courier Internacional cujo tema era grandes individualidades mundiais que foram determinantes em várias áreas do conhecimento e da arte que foram esquecidas pelo tempo – era um número especial dedicado a mulheres.

Percebem onde quero chegar? Esquecidas. Na noite de 24 de Abril, ouvia uma conversa sobre o 25 de Abril – nada contra a iniciativa, muito meritória, aliás – mas ouvindo as conversas, só homens falaram. Estavam duas senhoras na sessão, mas não ouvi as histórias delas. E esta questão de Abril é uma coisa que mexe comigo há alguns anos. As conversas de Abril são conversas de homens que puseram fim a uma ditadura. Se pudesses, eu mesma ofereceria um cravo a cada um. Mas Abril não se resume a isto.

E as mulheres de Abril? E as mulheres de Abril, o que faziam combatiam politicamente o regime?  As mulheres que viveram na clandestinidade? E as mulheres que ficaram sem homens em casa porque todos os adultos foram para a guerra e se viram a braços com 4 crianças e adolescentes para sustentar? E as mulheres que viram os maridos feitos presos políticos durante meses e tiveram de continuar a levar com a vida às costas? E as mulheres que foram presas políticas?

Destas histórias nunca se fala. Continuamos a não dar voz a estas mulheres. Continuam esquecidas. Não se fala delas nos livros da escola, da mesma forma como não se explica na escola como as mulheres eram tratadas legalmente no antigo regime. São-coisas-de-mulheres-não-interessam. Vamos falar de coisas sérias.

No fundo, ao ler o artigo de Fernanda Câncio, começo por entusiasmar-me com aquilo que evoluímos. Depois penso em tudo o que há para fazer.

Em jeito de despedida, deixo-vos uma pequena curiosidade:

A primeira mulher do mundo a apresentar um filme no Festival de Cannes, na sua primeira edição, chamava-se Bárbara Virgínia e – adivinharam!  – era portuguesa. O seu filme chamava-se “Três Dias Sem Deus” e contava a experiência de uma professora primária, numa remota aldeia do interior, que enfrentava a desconfiança e as superstições dos aldeões.

No mesmo ano, estreia em Cannes um filmes que viria a ser um dos clássicos da cinematografia portuguesa: “Camões” de Leitão de Barros, que certamente ou já viram, ou já ouviram falar.

Quanto ao filme da Bárbara Virgínia? É uma obra parcialmente perdida do cinema português, para além de alguns minutos sem som que estão nos arquivos da cinemateca. Esquecida.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.