1 de Maio

Em 1974, oito dias depois da conquista da Liberdade, o povo saiu à rua, numa extraordinária afirmação de que não queriam apenas um golpe militar, queriam ir mais longe, queriam uma revolução. O 1º de Maio, dia maior da luta de quem trabalha, ficava assim associado, em Portugal a um rumo de progresso e de paz.

O Dia do Trabalhador é celebrado por todo o planeta, sempre na luta pelos direitos de quem trabalha. Entre as diversas conquistas, fruto da luta dos trabalhadores portugueses, em 1919 é consagrada na lei a jornada de oito horas de trabalho para o comércio e para a indústria.

As celebrações deste dia tiveram lugar mesmo durante a ditadura fascista. Por exemplo, mesmo nessas condições de repressão, os trabalhadores agrícolas do Alentejo impuseram a partir do 1.º de Maio de 1962, a jornada de oito horas de trabalho diário.

Nunca os trabalhadores baixaram os braços na luta pelo direito ao trabalho, na luta pelas condições de trabalho, na luta com o movimento sindical de classe, pelas grandes conquistas laborais, sobretudo contra a exploração.

Infelizmente, o que assistimos hoje é a uma regressão no que foram estas conquistas. É urgente encher as ruas do nosso país na próxima segunda-feira, 1 de Maio, porque em nome da crise do capitalismo foi-se tentando impor uma falsa ideia de que “o que interessa é teres um salário ao fim do mês, os direitos e os contratos com direitos ficam para quando terminar a crise!”

Hoje regredimos nas condições laborais quando ouvimos as mil e uma histórias, que não são de encantar.

Os professores que com 20 anos de carreira continuam de mala na mão, de cidade em cidade, sem a possibilidade de construir família e na incerteza ano a ano se terão trabalho.

Os trabalhos que ocupam postos de trabalho permanentes sem contrato efectivo.

Os estágios não remunerados camuflados pela promessa “de que se fores muito bom o lugar pode ser teu”.

A jornada de 8 horas de trabalho que pode chegar às 12 horas, tal como, as folgas semanais que podem não ser usufruídas nos dias combinados.

O banco de horas tentando convencer os trabalhadores que são eles que controlam as suas horas de trabalho, para evitar o pagamento das horas extraordinárias.

A tentativa de limitar o direito à maternidade e à amamentação através da invasão da intimidade e direitos das mulheres.

E mesmo o Estado, que deveria ser o exemplo, dá tímidos passos para que termine o trabalho precário na administração pública. Temos o direito à educação, à saúde, à cultura, à habitação e ao trabalho. E só com contratos efectivos, com horários dignos, com respeito pela qualificação de cada trabalhador, com salários dignos é que é possível o Estado prestar um bom serviço à população.

Por tudo isto e muito mais que não cabe num simples texto de opinião, todos têm razões para ir ao 1 Maio, no Toural, os trabalhadores com contrato precário em luta com vínculos efectivos, os trabalhadores que lutam por aumentos de salários, os desempregados que reclamam o direito ao emprego, os reformados que reclamam melhores pensões, os utentes dos serviços públicos que exigem melhores condições.

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.