Pelo fim da violência no futebol

Eu sou uma adepta fervorosa do Vitória Sport Clube (pelo menos acho que assim me posso considerar). Para todos os efeitos eu sou vimaranense, mas durante cinco dias da semana eu resido e trabalho em Braga.

Na semana passada enquanto conduzia no meu caminho para casa passei por cinco adeptos do Sporting Clube de Braga, que faziam a sua corrida diária, com a camisola do seu clube vestida e juro que não senti qualquer vontade de atropelar nenhum deles.

Depois de tudo o que se tem passado nos últimos tempos, sinto a necessidade de dizer que os adeptos de futebol não são violentos. Há é pessoas idiotas que transferem a responsabilidade das suas ações criminosas para o apoio ao seu clube.

O futebol é o maior fenómeno social de todos os tempos. Essa afirmação é facilmente observada pelo amor que os adeptos têm pelo seu clube (o Vitória é um bom exemplo disso ), porém a crescente violência no futebol (eu não sei se crescente será o termo certo: ela sempre existiu, mas acho que o facto dos casos mais recentes incluírem os ditos três grandes trouxe mais atenção para o assunto) leva muitos adeptos a desistirem de ir ao estádio. (Durante muitos anos fui uma dessas pessoas – a violência era a única coisa que eu associava ao Vitória e tal deve-se maioritariamente ao que passava nos media – até que resolvi ir a um jogo e descobri que tais comentários não faziam qualquer sentido).

A realidade é que o futebol é um desporto de muitas emoções e que, quando alguém participa num jogo de futebol dentro de uma claque essas emoções (muitas das vezes reprimidas no quotidiano) são expandidas. Desta forma é na claque que essa pessoa demonstra a sua identidade e começa a manifestar e a agir de maneiras que não faria isoladamente, colocando para fora todos os sentimentos de impotência e frustrações pessoais que acabam por ser diluídas no coletivo da claque.

Caros elementos da claque, não leiam isto como um insulto. Eu já o disse várias vezes que o futebol consegue ser terapêutico, que não há nada melhor do que um jogo de futebol para descomprimir (quem não teve uma péssima semana e depois berrou muito mais com o árbitro que “atire a primeira pedra” – eu gostava de usar uma expressão menos violenta, mas não encontrei). Não acho que haja nada de mal em soltar alguns palavrões, em criticar o árbitro ou o adversário durante um jogo de futebol mas o problema acontece quando estes atos se tornam insuficientes para alguns adeptos e estes decidem cruzar o limite do aceitável e partir para a violência. O problema acontece quando estes indivíduos tentam transferir a responsabilidade das suas ações criminosas para o apoio ao seu clube.

Na minha humilde opinião, acho que a solução passa por todos nós. Mahatma Gandhi disse “Sê a mudança que queres ver no mundo”. Não serve de nada exigirmos que os dirigentes, os comentadores desportivos, as autoridades, a Federação e as claques mudem os seus comportamentos se nós continuarmos a perpetuar e a aumentar este clima de ódio nas redes sociais dizendo que este e aquele é que são os culpados, insultando esta e aquela claque, este ou aquele indivíduo. A mudança tem de começar em cada um de nós e só assim se pode propagar.

É fundamental que se re-analise os programas de comentadores desportivos nas televisões portuguesas. Eu acredito que seja ótimo para as audiências de um canal ter três pessoas a discutir sobre os seus clubes, mas na maioria das vezes estes indivíduos servem-se dos seus “15 minutos de fama” para insultar o adversário e falar apenas do que vai mal no futebol. Muitos destes programas são autênticas propagandas ao fanatismo e às rivalidades. Acho que eles se esquecem que são vistos por muitas pessoas e que as suas palavras podem ter interferência no que se passa depois entre os adeptos.

O mesmo se aplica aos dirigentes que persistem em vir para público repudiar os seus rivais em vez de glorificar o seu clube (há uma semana criticava a passividade de Júlio Mendes, mas acreditem que prefiro mil vezes que não diga nada do que vá para a praça pública fazer comentários cheios de ódio e fanatismo).

Acho que a solução tem de envolver dirigentes dos clubes, Federação Portuguesa de Futebol, Liga Portuguesa de Futebol, Autoridades Públicas e o Governo. É importante que discutam e implementem um plano nacional de ações debatidas.

As ações devem ter três frentes: repressão a curto prazo, prevenção a médio prazo, e reeducação a longo prazo.

A solução tem de começar pela punição daqueles que praticam atos criminosos e acabar com a morosidade da Justiça. É irrelevante fazer campanhas de sensibilização se as pessoas souberem que os seus atos, por piores que sejam, vão acabar impunes.

Ao mesmo tempo, é importante preparar a Polícia para lidar com multidões do futebol. Os adeptos de futebol são, na maioria dos casos e principalmente nos jogos fora, tratados como criminosos e é importante que os agentes também estejam treinados para lidar com este tipo de deslocações que têm especificidades próprias.

Eu, por exemplo, deixei de ir a alguns estádios devido à forma como era tratada pela Polícia. Já tive de entrar descalça no Dragão. Já tive centenas de pessoas a saltar por cima de mim enquanto permanecia paralisada entre as escadas do Estádio do Mar numa tentativa de não ser espezinhada porque a Polícia não gostou que os adeptos subissem as grades para aplaudir os seus jogadores no final do jogo. Já tive de ser revistada como uma criminosa ao ponto da revista se tornar desagradável e desrespeitosa apenas para entrar no estádio. Já fui impedida de usar uma casa de banho entre Lisboa e Guimarães porque a Polícia proibiu a paragem da nossa camioneta em todas as estações de serviço existentes, entre outros…

Pelo contrário também já tive ótimas experiências com a Polícia como quando fizeram questão de me escoltar quase até ao meu carro quando comentei que teria de fazer o caminho sozinha em Braga depois do mítico jogo do Soares Dias ou quando no Restelo permitiram que as pessoas com mobilidade reduzida saíssem primeiro do estádio para que não fossem abarroadas enquanto subiam todas aquelas escadas…

Mais uma vez, há bons e maus profissionais, mas acho que o seu treino na área do futebol é baseado maioritariamente na forma de lidar com os piores comportamentos que possam ser esperados e essa forma de tratamento é aplicada a todos os adeptos. É importante que os agentes das forças policiais e os assistentes de recintos desportivos também saibam agir corretamente nestas situações para não se tornarem eles próprios o incentivo e o alvo dos atos de violência.

Nada disto isenta os adeptos dos seus comportamentos. É importante que os clubes, a Federação e a Liga se unam quer para regular as claques, quer para fazer uma reeducação pedagógica dos adeptos. Não serve de nada vir a público repudiar os seus adeptos se depois continuam a dar-lhes benefícios. Mais uma vez, se não houver punição para os atos torna-se mais difícil dissuadir as pessoas de os praticarem.

Eu adoro ir ao futebol em família e espero poder continuar a fazê-lo sem ter de me questionar se quando vou ao estádio ver um jogo estou a colocar aqueles que amo numa situação de risco. Eu sinto-me segura no D. Afonso Henriques e particularmente na minha bancada (caso contrário nunca levaria uma criança para lá – mesmo depois dos desacatos no derby minhoto das equipas B há uns anos, eu continuei a levar o meu afilhado ao jogo porque sei que ele está seguro) e espero continuar a sentir-me assim.

A violência no futebol existe e não a podemos negar mas também é importante que paremos de propagar o ódio entre clubes. Eu resolvi usar os meus “15 minutos de fama” esta semana para apelar à não violência nos estádios. Pode não ser muito, mas se todos fizermos a nossa parte é possível irradiar este problema.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.