Outra vez as eleições francesas

É já no próximo domingo que vamos conhecer o resultado eleitoral que ditará quem é o próximo Presidente da República Francesa.

A imprensa portuguesa e também europeia vem dando particular relevância a esta eleição e não é por acaso. Por tudo aquilo que está em jogo, não apenas naquele país mas também na União Europeia. É que, enquanto Macron defende esta, ainda que reconhecendo, como tantos especialistas, que urge refundar a já “velha” União Europeia, Marine Le Pen é contundente, quanto a este conceito e agita as bandeiras do populismo e da xenofobia. Estes pretensos valores, sobretudo após as eleições americanas, que elegeram Trump, acompanhadas de sinais claros dentro da própria União a que pertencemos, parece começar a fazer caminho.

Perceber a complexidade da conduta de vários intervenientes políticos nestas eleições, é tarefa que exige conhecimento do terreno, quer em França mas também na Europa. Os extremos tendem a aproximar-se, num aparente quanto pior melhor.

Após a primeira volta destas eleições, que definiu quem são os dois candidatos finalistas do prélio eleitoral, é preciso fazer contas, face ao resultado de outros intervenientes. Poderemos, então, como que adivinhar quem é quem nas políticas que defendem, reforçando ou não, com o seu apoio, um dos dois candidatos finalistas.

O clima eleitoral em França revela-nos aquilo que já atrás se afirmou. O líder da extrema esquerda do espetro político francês, hesitante, não define, nem indica aos seus, o candidato a apoiar.

A explicação para este posicionamento afigura-se-nos simples: com esta tomada de posição, Mélenchon sabe que vai dar um contributo indireto a Le Pen, que está (ou deveria estar) nos antípodas das preocupações políticas, cívicas e sociais que proclama.

Este nim de Mélenchon não acontece por acaso, nem é apenas modelo exclusivo de França. Há, de facto, um turbilhão de interesses e de equilíbrios geoestratégicos que resultam de empatias políticas do passado mas que existem, ainda que sem a lógica original, que estarão por detrás deste tipo de contradições.

Para os portugueses, emigrantes ou não, sobretudo pela dependência que continuamos a ter de uma Europa a 27, serve os nossos interesses o candidato defensor dos valores originais na Comunidade Europeia. Todavia, como bem referiu Macron, tocando o atual momento da União, exige-se uma refundação da mesma, se quisermos sobreviver aos avanços e recuos a que esta se tem votado.

A burocratização que impera na Europa a 27, a correlação de forças que não trata a todos por igual quanto à aplicação dos tratados, a sobranceria dos países mais ricos perante os do Sul Europeu fragilizam-na aos olhos de terceiros, relativizando a sua importância como verdadeira potência que devia ser e não é.

Macron ou ajuda a por cobro a isto, e não será fácil, ou perderá a credibilidade daqueles que ainda o imaginam com um estatuto coerente, tomando decisões, de grande importância, que neste quadro, urge assumir.

A curto prazo teremos eleições legislativas em França e a estabilidade deste país e da União Europeia vão ser de novo postos à prova. Os objetivos dos dois candidatos à presidência terão um novo teste para percecionarem quem é quem nas políticas que querem implementar.

Durante estes últimos quinze dias de campanha, Le Pen pareceu impreparada nalguns domínios fundamentais da governação. Noutros, porém, que são o cerne da sua doutrina, mostrou-se atrevida e quase insultuosa. Macron parece melhor preparado e defende políticas mais consonantes com a democracia que professamos.

É bom estarmos atentos à evolução das políticas, particularmente na Europa. Qualquer distúrbio de maior dimensão acaba por vir bater-nos à porta. A política doméstica, mesmo a nacional, naquilo que a todos interessa ainda que de uma forma velada, é subsidiária de tudo o que se passa à nossa volta. Por isso, o rol das nossas preocupações merece um raio de ação mais abrangente do que aquele que é costumeiro entre nós.

Esperemos até domingo para conhecermos o nome do vencedor e ponderarmos, com outra sustentação, o que aí vem.

 

 

António Magalhães, 72 anos, é presidente da Assembleia Municipal de Guimarães desde 2013. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).