Viagens ao espaço em low-cost

Se é um entusiasta do espaço e das viagens espaciais, escusa de fazer as malas tão depressa pois ainda não é desta que poderá rumar ao cosmos comprando o seu bilhete através da internet nas tradicionais companhias de aviação de baixo custo, ou low-cost.

Apesar disso, como tem sido amplamente noticiado, a empresa privada norte-americana SpaceX conseguiu lançar um satélite para o espaço com a ajuda de um foguetão de “baixo-custo”. E é este o feito tecnológico que parece poder abrir uma nova era nas viagens siderais, as chamadas viagens espaciais low-cost.

O mais notável no recente lançamento da empresa SpaceX, empresa fundada e gerida pelo milionário Ellon Musk, o mesmo que fundou a conhecida marca de automóveis 100% elétricos (e parcialmente autónomos) Tesla, foi o facto de neste lançamento se ter usado um foguetão que já tinha sido lançado antes. Tal foi possível porque o mesmo tem a capacidade de retornar inteiro após o lançamento e conseguir “aterrar” numa plataforma flutuante no meio do Atlântico. Tem sido esta “aterragem” que temos visto de forma frequente em noticiários e imagens de jornal.

De ponto de vista tecnológico, a grande inovação consiste mesmo na reutilização dos foguetões. Até hoje, todos os foguetões lançados acabavam por cair no mar e se destruírem depois de terminado o combustível… e isso não seria grave, não fosse o facto do custo de um foguetão ser de algumas dezenas de milhões de dólares. Para termos uma ideia da possível poupança que esta nova abordagem pode trazer, basta pensarmos que o combustível gasto no lançamento do foguetão não chega a 1% do custo de todo o lançamento.

Por isso, a empresa SpaceX, que é uma das mais bem posicionadas para a corrida ao chamado turismo espacial, vê aqui uma possibilidade muito interessante de tornar estas viagens espaciais muito mais baratas e equacionar, inclusive, a possibilidade de concretizar um dos sonhos do seu criador, o de colonizar Marte.

A tecnologia associada a estes desenvolvimentos tecnológicos é verdadeiramente surpreendente e complexa e isso talvez justifique o uso da a expressão em inglês “rocket science” (em tradução literal “ciência de foguetões”) para indicar algo claramente complexo ou detalhado. Quem pensa que esta complexidade da ciência aeroespacial está muito avançada face à realidade tecnológica portuguesa, talvez esteja enganado….

Desde os primórdios da aeronáutica, Portugal tem aportado importantes contribuições nesta área e, mais recentemente, esta atividade foi mais evidente quando o Governo português anunciou a participação ativa na construção do primeiro avião militar da empresa brasileira Embraer, o KC-390. Mas a intervenção portuguesa neste domínio não se resume a esta colaboração mais mediática. Existem vários exemplos de grande impacto, com empresas e universidades portuguesas envolvidas em várias atividades que vão desde a criação de veículos aéreos não tripulados, a empresas de software que trabalham diretamente com a Agência Espacial Europeia e a NASA, passando pela área das comunicações e satélites e ainda pelo desenvolvimento de materiais e estruturas usadas na indústria aeronáutica e aeroespacial.

Um sinal claro da crescente importância do setor aeroespacial em Portugal é a aposta mais recente do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior neste domínio, nomeadamente através da iniciativa liderada pela FCT que visa definir uma agenda de investigação para o Atlântico centrada nos Açores. Esta iniciativa, designada por AIR Center (Atlantic International Research Center), promoverá a investigação integrada em várias áreas, dando particular relevância ao espaço. A iniciativa tem vindo a contar com um número crescente de parceiros industriais, académicos e políticos de vários países, incluindo o MIT e o Programa MIT Portugal.

Esta e outras iniciativas mostram que a Engenharia Aeroespacial deixou há muito de ser algo que está longe das universidades portuguesas e da Engenharia nacional, não só porque já existe uma oferta no ensino superior na área da Engenharia Aeroespacial há vários anos e com assinalável sucesso, como também, e sobretudo, por me parecer ser urgente e oportuno que se criem mais estruturas de investigação e de engenharia ligadas a esta área.

Sendo a região Norte de Portugal conhecida pelos seu dinamismo e empreendedorismo tecnológico, arrisco dizer que poderemos estar a atravessar um momento oportuno para se equacionar uma aposta na área da Engenharia Aerospacial, em particular através de uma oferta formativa nesta área pela Escola de Engenharia da Universidade do Minho.

Termino esta crónica voltando à história inicial e com um pormenor delicioso que julgo que ilustra bem que os engenheiros e cientistas da SpaceX também têm criatividade: a plataforma flutuante que acolhe o foguetão no seu retorno à terra foi batizada como “Of course I still love you” (É claro que ainda te amo)!

Pedro Arezes, 44 anos e natural de Barcelos, é Professor Catedrático na Escola de Engenharia da Universidade do Minho e Diretor Nacional do Programa internacional MIT Portugal (www.mitportugal.org). Tendo orientado mais de 100 teses e dissertações, é coautor de mais de 400 publicações científicas. Ao longo dos últimos 20 anos, foi palestrante convidado em mais de uma centena de palestras em cerca de 15 países.