A Mãe e o Vitória

As Mães são definitivamente o melhor do mundo. Ontem foi o dia delas e acho que devemos aproveitar todos os momentos possíveis para lhes fazer as devidas homenagens.

A minha Mãe entende muito pouco de futebol. Ela provavelmente ainda não conseguiu perceber o que é um fora de jogo, grita que é penalty quando acontece uma falta a 2 metros da grande área, não sabe o nome da maioria dos nossos jogadores, mas é uma grande Vitoriana.

Quando estava no processo de escolher que universidade frequentar a minha mãe resolveu “chantagear-me” e dizer que se tornava sócia do Vitória e iria a todos os jogos comigo se eu ficasse a estudar em Braga. No início da época lá estava ela no Apoio ao Associado a tornar-se sócia e a comprar lugar anual ao meu lado. Já se passaram 10 anos…

Tal como o amor que tem por mim, o amor dela pelo Vitória é puro. Bem mais puro que o meu até. Eu exijo vitórias, exijo bons jogos de futebol, exijo mundos e fundos… Ela não exige nada. Ela vai a todos os jogos sem quaisquer expectativas e permite-se divertir (independentemente do resultado – o que por vezes me deixa fula), permite-se fazer piadas, permite-se falar com conhecidos e desconhecidos. Permite-se reclamar só porque quer reclamar. Quando o Vitória ganhou a Taça em 2013 ela prometeu e foi à Penha a pé descalça (e diz que fará o mesmo se o Vitória repetir o feito daqui 20 dias)! Poderá haver amor mais puro? A minha Mãe é um ser humano mesmo especial.

A minha Mãe não sabe o nome da maioria dos jogadores, mas todos os anos lhes dá apelidos fofos que nos fazem rir. Ainda me lembro dela a gritar pelo “Puto” e do momento em que com “a maior das latas” foi ter com o Nuno Assis para lhe dizer que era ela a pessoa que berrava “vai Puto” das bancadas. Ela diz adeus aos jogadores da bancada e acha que eles ouvem o que ela diz. Ela fica super feliz se passa por um jogador do Vitória e o reconhece mesmo sem saber o seu nome. Eu fico cheia de vergonha, mas ela vai ter com os jogadores e deseja-lhes boa sorte para o próximo jogo porque, para ela, eles são família. Mãe vai ser sempre Mãe e ela sente-se quase como Mãe deles todos. Não ponham os miúdos a jogar à chuva que ela vai passar o jogo inteiro com medo que eles se constipem (isto se estiverem a jogar bem, porque se a coisa anda mal ela vai querer pô-los de castigo e desejar que eles treinem à chuva todos os dias para aprenderem).

A minha Mãe sente-se tão Mãe dos jogadores que até “adotou” um (eu acho sempre engraçado dizer isso). Há uns anos um jogador do Vitória veio morar para a nossa rua. Ele tinha 17 anos na altura. Estava sozinho em Guimarães, longe da família, a lutar pelo seu sonho e este processo de adaptação nunca é fácil. A minha Mãe começou a falar com ele, ela ouvia as suas histórias e acabaram por se tornar amigos. Era sempre difícil para a Mãe dele ir-se embora, mas eu sei que desde o momento em que a minha Mãe apareceu ela se sentia muito mais sossegada ao deixar o seu menino em Guimarães. Ele acabaria por nunca vestir a camisola do Vitória, mas a minha Mãe sempre o apoiou. Por ele a minha Mãe vestiu (isto continua a fazer-me confusão) a camisola do Braga (a amizade é muito mais importante do que as cores futebolísticas). Ainda hoje, ele é um jogador de sucesso e mantemos contacto permanente. Ele e a sua família tornaram-se parte da nossa família porque a minha Mãe resolveu ser Mãe de todos, como sempre foi, com um jogador do Vitória (nunca tinha pensado nisto, mas podia ser uma boa ideia – vitorianos mais idosos ou solitários poderem passar tempo com jogadores do Vitória mais novos que se encontram pela primeira vez sozinhos em Guimarães sem a família).

Para mim, a viagem a Basileia vai ser sempre lembrada com sofrimento e um pouco de ressentimento. Para a minha Mãe foi a aventura da sua vida. Foram horas e horas de camioneta e ela não reclamou uma única vez. Aturou uma filha chata e de péssimo humor na viagem de regresso e não perdeu o sorriso. Ela não se lembra daquela viagem como o maior roubo da história do futebol… Ela lembra-se do clima de festa que existia na cidade de Basileia. De gritar Vitória no meio da rua e existir sempre um vitoriano para responder. Ela lembra-se do quão amorosos os jogadores foram quando nos vieram receber à entrada do hotel. De abraçar o Desmarets, do encontro com o amigo das caminhadas – Neno -, das fotos com o Cajuda e com mil e um jogadores cujos nomes ela não sabe, mas que continua a dizer que eram bem melhores do que os de agora – porque interagiam mais com os vitorianos.

Há pouco tempo surgiu numa conversa que alguém tinha deixado de ser sócio quando o pai faleceu. Quando ouvi aquilo pareceu-me algo estranho, mas depois dei por mim a pensar nisso no meio da noite e a realidade é que eu não consigo imaginar um jogo do Vitória sem a minha Mãe. Um jogo do Vitória sem a minha Mãe berrar que é penalty quando ocorre uma falta a 2 metros da grande área, sem a minha Mãe a abraçar-me quando marcamos golo, sem a minha Mãe a insultar o árbitro mesmo quando ele não faz nada de mal, sem a minha Mãe a perguntar-me quem é o Pedro Martins (desculpe Mister, eu adoro-o, mas a minha Mãe não aprende o seu nome por nada neste mundo), sem a minha Mãe a dar nomes absurdos aos jogadores, sem a minha Mãe a perguntar quem é este e aquele jogador a cada minuto. A realidade é que eu não consigo imaginar a minha vida sem ela.

Geralmente os filhos agradecem aos pais por lhes terem passado o amor pelo Vitória. Eu não posso fazer isso, mas posso agradecer-lhe todos os dias por se ter tornado a minha companheira de jogos, de viagens e de aventuras.

Eu sei que todas as Mães são incríveis, mas a minha é vitoriana, Potterhead e ama-me incondicionalmente, portanto ela é definitivamente (e ignorando todos os clichés) a melhor Mãe do mundo (desculpem-me fazer um longo texto apenas a falar sobre a minha Mãe, mas se a conhecem – e as probabilidades são muito grandes porque ela fala com toda a gente – tenho certeza absoluta que sabem que ela merece)!

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.