Silvestre, meu amor, ou a besta humana

Silvestre é o gato vadio que a minha irmã adoptou e que, por incompatibilidade com Sookie – a gata que se comporta como se fosse da realeza – já adoptada pela minha irmã, acabou por ir viver lá por casa.

No Silvestre, o nome é auto-explicativo – é um gato selvagem. Brinca pela casa, como se estivesse numa savana, trepa aos móveis para se atirar em vôos picados para caçar algum animal que só ele vê, dorme em vários locais e em posições diferentes ao longo do dia. Não é um animal de estimação. Até porque não é fácil estimá-lo ou mimá-lo. Nem sempre está para nos aturar quando queremos pegar nele e dar-lhe mimo. Às vezes prefere ficar à distância a tomar banho de lambida ou simplesmente a estar num sítio e a olhar para algum lado.

Às vezes, vem devagarinho ter comigo, a ronronar, e obriga-me a parar de fazer o que estou a fazer para trocarmos miminhos. Adoro tanto, que me distraio e não me apercebo do momento em que ele pára de ronronar e começar a trepar-me ou a afiar as unhas nas minhas mãos ou a morder-me as canelas.

Pergunto-me o que é que o Silvestre faria se visse outros gatos e gatinhos a morrer e pudesse salvá-los. Os gatos não pensem, dizem, agem por instinto e depois do instinto do indivíduo, pergunto se terão o instinto de salvar outros da mesma espécie.

Por exemplo, as capivaras. As capivaras são animais roedores que se encontram para os lados do Brasil. Vivem em grupos, defendem-se em grupos de predadores de outras espécies. Não pensam, existem, brincam, nadam, reproduzem-se, defendem-se e mantêm-se unidas.

Tanto as capivaras como os gatos são irracionais. Não são dotados de capacidade de raciocínio, agem por instinto, ao contrário de nós, humanos, racionais.

Nós, humanos, racionais – e por isso superiores – comportamo-nos como se tudo no planeta terra estivesse aqui para nos servir (e aos “mercados”). Nós, humanos, racionais, que inventámos a pintura, a escultura, a poesia, a música, o cinema, a fotografia, a literatura…a arte – Há coisa mais incrível? Nós descobrimos a medicina, erradicámos doenças, matemática, física, biologia, astronomia e todas as demais disciplinas que nos ajudam a perceber o que somos e o que fazemos aqui, e pelo caminho, a filosofia.

Ontem o mundo ficou a saber que as 268 pessoas que morreram afogadas no Mediterrâneo, entre elas 60 crianças, poderiam ter sido rapidamente salvas por Itália. Eu sei que dizer Itália é muito genérico, mas é o que diz o artigo que li.

O artigo também refere que Malta poderia ter salvo aquelas pessoas, mas a embarcação mais próxima era italiana e, que por isso era Itália que, por lei internacional, era o país que deveria prestar socorro. O artigo refere também as trocas de comunicação entre Itália e Malta, a troca de telefonemas e de faxes e a indecisão de quem sai em socorro dos refugiados sírios.

Aparentemente, as autoridades italianas continuam a investigar este naufrágio. Eu sinceramente não sei nada de Itália nem de Malta, mas sei agora que houve um número de pessoas que soube do naufrágio a tempo de salvar aquelas quase 300 vidas e não o fez – obviamente por razões políticas, de jogos de empurra de refugiados/migrantes/pessoas-em-busca-de-melhores-condições-de-vida entre países. Pessoas das quais ninguém quer saber, apesar das mesmas não terem escolhido o local onde nasceram, a cor de pele, ou mesmo, não serem directamente responsáveis por situações de guerra nos seus países ou por serem governados por ditadores/sanguinários. Nada disto interessa, porque estas pessoas não são como nós e por isso ninguém quer saber.

Eu leio estas notícias e só me apetece abraçar o Silvestre e, se conseguisse, dizer-lhe, quanta vergonha tenho, às vezes, por ser humana.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.