O choque de valores

Hoje ouve-se, ainda com frequência, a propósito de naturais acontecimentos do quotidiano que já não há valores, quando os atos praticados não se conformam, antes contrariam o tradicionalismo da doutrina humanista.

Na realidade em que hoje vivemos, este conceito já não tem sustentação. De facto, face a fenómenos de natureza política, económica e social, resultantes de múltiplos fatores, como a globalização e o acelerado desenvolvimento das novas tecnologias, estão a emergir em força outro tipo de conceitos com que a sociedade contemporânea tem de se confrontar.

Estes paradigmas de diferenciados modos de convivência social, são movimentos com origem temporal bem distante e começam a ganhar enorme amplitude, impondo mesmo no seu “território” comportamentos cívicos e sociais desviantes das rotinas que os cercam.

A liberalização, aliada à rápida evolução tecnológica das últimas décadas, precipitou um lastro de decadência que atinge milhões de seres humanos, incapazes de acompanhar as mutações que à sua volta se foram verificando. Estes, vendo perigar a sua subsistência, perdendo um “status” que já tiveram, insurgem-se contra as incidências da liberalização, deixando-se capturar pela doutrina que apela ao racismo, à xenofobia e, também, aos preconceitos nacionalistas, que sempre conflituam com o cosmopolitismo das sociedades mais desenvolvidas.

Não conseguindo a sua integração, esta horda de deserdados, fruto de um conjunto de lógicas economicistas que propiciam o predomínio das multinacionais, vão crescendo em número e na sua organização, particularmente nas economias ocidentais que alimentavam um Estado-Providência e que dão claros sinais de impotência para o manter.

Traídos por um sonho que alimentaram, manipulados pelos predadores das sociedades individualistas, entregam-se às mãos de um qualquer “redentor” que vai prometendo o que sabe não poder cumprir. Face ao desespero que o atormenta, acede ao que julga ser a receita para os males da sociedade onde agora vegeta.

O descrito propicia o aparecimento de novos valores que chocam com os tradicionais, conferindo-se a estes o estatuto de falsos valores, quando realmente o não são. São, sim, valores que resultam de alterações emergentes, oriundos de diversificados estratos sociais com novas doutrinas, que tendem a afirmar nos redutos que agora controlam.

É óbvio que, tendo em conta as origens e o anarquismo do seu aparecimento, aliado à irreverência com que assumem o confronto com o tradicional, são considerados à partida como falsos conceitos de uma vida civicamente errática. É nesta adaptação de vida comunitária que os seus hábitos chocam as sociedades tradicionais.

Fenómenos semelhantes surgiram depois da II Guerra Mundial, onde a teoria do existencialismo impunha, como doutrina, que cada indivíduo deveria realizar-se pelo seu próprio projeto social.

A democracia que então impunha direitos e deveres, não podendo responder aos apelos sociais como até então, vai deixando cair estes no esquecimento.

De patamar em patamar, hoje uma violência, ainda que mitigada, impera na escola, na rua e até no seio das próprias famílias.

A outra dimensão que já todos conhecemos, o terrorismo, assumiu uma forma violenta de protesto. Por razões de vária índole, sem trabalho, sem integração social, fragilizados e longe das suas raízes, fazem da força um valor que cultivam em nome das suas origens, da sua religião, ou ainda sedentos de vingança, por não poderem obter o que almejaram.

É um paraíso sombrio da história contemporânea que estamos a viver, com um horizonte temporal desconhecido, mas que se apresenta nebuloso depois de setenta anos de uma paz social que, de repente, surge fragilizada em várias partes do globo.

O choque de valores, mais profundo do que o aqui aflorado, vai continuar a fazer o seu caminho e a impor-nos a aprendizagem de que, consonantes com as suas vivências, outros nos chocarão contrariando os nossos costumes.

Quem de direito que pugne por uma sociedade mais justa à escala global. Se tal acontecer, os estragos serão minimizados e poderemos, enquanto é tempo, reduzir a perigosa crispação que hoje a todos atormenta.

 

António Magalhães, 72 anos, é presidente da Assembleia Municipal de Guimarães desde 2013. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).