As linhas da Terra

O dia nasceu bonito, com o céu azul. Pela manhã sente-se na pele uma brisa fresca, ouvem-se os passarinhos no parque e sente-se o cheiro a terra molhada.

Da janela vemos o sol ganhar corpo e sentimos o seu calor. A janela do comboio mostra-nos o mesmo caminho, todos os dias ou nos dias em que a viagem é mais longa também o reconhecemos. Os campos, os animais domésticos que são soltos, as casas com as famílias em rotinas diárias.

Do lado de dentro ouvem-se as conversas dos conhecidos, os bons dias de quem se reconhece nos mesmos horários, as conversas ao telefone com amigos, familiares e, aqui e ali, promessas de amor. As teclas dos telemóveis revelam as visitas às redes sociais e aos jogos que ajudam a passar o tempo.

No comboio encontramos as letras dos jornais diários, das revistas das fofocas, dos romances, dos livros científicos, dos apontamentos dos estudantes que mais uma vez são lidos e relidos, do computador onde se adianta trabalho e se organiza a agenda. Encontramos os animais de estimação e as bicicletas que são utilizadas para deslocações mais curtas ou para deportistas que escolhem ver outras paisagens.

O seu embalo leva-nos para o sono que faltou, para o sonho que nos relaxa, para o descanso do dia que já vai longo. Deixamo-nos acompanhar pela música e em viagens mais longas colocamos os últimos episódios, daquela série fantástica, em dia.

Optar pelo comboio como forma de nos deslocarmos para as mais variadas tarefas da nossa vida é recusar o stress do trânsito, o barulho da quantidade exagerada de carros, o cheiro a combustível queimado, os nervos com a condução dos outros, os gastos nas portagens e é recusar a exploração de recursos naturais que um dia vão acabar.

Andar de transporte público não é para os pobres, optar pelo transporte público é aumentar o tempo de vida do nosso planeta, é garantir a mobilidade para todos e não só para alguns, é economizar, é respirar ar mais puro e viver sem barulho. É poupar nos custos na saúde pública.

Assim sendo, cabe a cada um de nós não só optar por uma solução de mobilidade mais justa e ambientalmente mais sustentável, como também exigir ao governo e ao poder local preços de passes e bilhetes justos, horários aceitáveis e variados, conforto nas deslocações e sobretudo exigir a intermodalidade.

Andar de transporte público é aproveitar o dia de forma mais relaxada, respeitando não só a nossa saúde física e mental, como também, respeitando o nosso planeta.

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.