Ode a Pedro Martins

Todos nós temos dias maus… Os fracos persistem em lembrar-se dos momentos maus e usá-los como desculpa para o seu insucesso. Os Conquistadores aprendem com os erros e levantam-se mais fortes. O jogo de sábado foi um momento mau de uma época memorável na qual o Vitória voltou a ser o NOSSO VITÓRIA.

Com uma final a 13 dias de distância, não temos tempo para lamúrias, nem desculpas. Hoje é dia de voltar aos treinos e preparar a equipa para vencer a Taça de Portugal.

O Vitória de Pedro Martins – o Vitória de todos nós – pode não ter estado na Luz, mas ele ainda existe, está vivo e está preparado para lutar. Acham que D. Afonso Henriques desistiu quando perdeu Évora e Beja para os Mouros em 1162? Nem pensar! Foram precisos três anos, mas com a ajuda de Geraldo Sem Pavor, D. Afonso Henriques reconquistou-as e a quando da sua morte deixou para o seu filho Dom Sancho I um território perfeitamente definido e independente.

Pedro Martins tem um exército cheio de conquistadores Sem Pavor – dentro e fora das quatro linhas – portanto tudo é possível, mas independentemente do que acontecer daqui a 13 dias, Pedro Martins ficará para sempre na História do Vitória como o treinador que conseguiu sete vitórias consecutivas, igualou (e esperemos que supere) o recorde de pontos conquistados numa época e que finalmente conseguiu vencer no Estádio Municipal de Braga. Ficará para sempre na História como o treinador que voltou a colocar o Vitória no lugar que merece (e isto é apenas o início).

Quando chegou ao Vitória – a 25 de Maio de 2016 – Pedro Martins afirmou que queria “colocar o Vitória no lugar onde merece estar” e que esta era a sua “cadeira de sonho”.

A uma jornada do final do campeonato, Pedro Martins pode sentir-se orgulhoso em dizer que alcançou todas as metas que delineou no início da época e muito mais (há quanto tempo isto não acontecia em Guimarães?). Com ele o Vitória escreveu (continua e continuará a escrever), efetivamente, “histórias fantásticas, páginas bonitas”.

Prometeu regressar às competições europeias: o Vitória teve a entrada direta na fase de grupos da Liga Europa assegurada a 2 jornadas do fim do campeonato.

Como sempre, a final da Taça de Portugal foi um objetivo traçado logo no início da época: aqui estamos nós, a 13 dias de voltar ao Jamor para defrontar a final (e com sérias possibilidades de a vencer porque o Benfica vai defrontar o melhor Vitória das últimas duas décadas).

Depois da vergonha que assistimos no jogo com o Estoril, o Presidente Júlio Mendes veio apelar à nossa união contra tudo e contra todos e colocou o 4.º lugar como um objetivo a cumprir: o Vitória não só chegou ao 4.º lugar a 2 jornadas do fim como conseguiu os feitos inéditos de 7 vitórias seguidas e de igualar o número máximo de pontos da história do clube (62). Também fora de casa, o Vitória conseguiu o seu melhor recorde de sempre: 10 vitórias.

Independentemente de ter alcançado todos os objetivos, o discurso do nosso treinador ainda continua humilde face ao adversário e com desejo de continuar a vencer. A conquista da Taça de Portugal é efetivamente um objetivo e se há alguém que eu acredito que o conseguirá é Pedro Martins.

Mais do que todas estas metas e objetivos, acho que o principal feito de Pedro Martins no Vitória foi a simbiose que conseguiu criar entre equipa e adeptos. Desde os tempos de Manuel Cajuda e do regresso do Rei (também da subida de divisão e do apuramento para a pré-eliminatória da Liga dos Campeões) que não víamos esta união.

Pedro Martins esteve no Vitória como jogador na década de 90 e conhecia muito bem a nossa realidade. Não é por acaso que logo na conferência de imprensa da sua apresentação como treinador diz que espera “contar com o apoio da massa associativa para escrever histórias fantásticas neste clube”.

Os apelos de apoio e os agradecimentos por esse mesmo apoio estiveram presentes em todas as conferências de imprensa do treinador. Pedro Martins aproveitou todas as oportunidades para valorizar o 12.º jogador da equipa e para nos mostrar que eramos um elemento essencial para que os objetivos fossem cumpridos. A resposta veio sempre da melhor forma com grandes deslocações – mesmo nos piores dos horários – e casas cheias para apoiar a equipa.

Os viking claps (engane-se quem pensa que foi a Islândia que os trouxe para o futebol porque há vídeos que provam que os adeptos do Vitória já o faziam pelo menos em 2004) no final dos jogos mostram exatamente isso. Os viking claps – que se deviam chamar Vitória claps – são uma espécie de abraço coletivo com palmas que dá força e apoio para o jogo seguinte. Acho importante realçar que esses aplausos existiram em todos jogos – no melhor e no pior jogo – porque nós sabíamos que o apoio no final dos jogos menos bons ainda se tornava mais importante. Ao longo da época essa relação foi ficando cada vez mais forte (já consigo imaginar o Jamor a tremer com um viking clap conduzido por Pedro Martins no final do jogo).

A coesão da equipa torna-se o grande segredo das conquistas desta época. Em campo deixamos de ter 11 jogadores em busca de glorificação pessoal (como vimos noutras épocas) e passamos a ter 11 jogadores que se conhecem, se respeitam, se valorizam.

Tudo isto se deve, em grande parte, à liderança de Pedro Martins. Em Janeiro e Fevereiro – em semelhança com as épocas anteriores – o Vitória teve um longo período negro. A saída de Soares para o Porto e João Pedro para o LA Galaxy deixaram a equipa instável e até um pouco perdida. As lembranças dos anos anteriores pareciam assombrar Guimarães, mas a verdade é que a equipa conseguiu colmatar essas saídas com novos jogadores e isso só mostra que toda a equipa está a trabalhar em sintonia e com objetivos claros em mente.

É também nesse Janeiro negro que o Vitória consegue algo que não conseguia há 14 anos: vencer em Braga. Depois de anos e anos a sair cabisbaixos do estádio do rival, o Vitória de Pedro Martins permitia-nos finalmente sair felizes de Braga.

Depois de duas escolhas que não me convenceram de todo, Pedro Martins foi efetivamente a escolha certa para comandar o exército do Rei e levá-lo de volta às conquistas, levá-lo de volta ao lugar que lhe pertence.

Obrigada Pedro Martins por nos devolver o nosso Vitória, aquele que há muito não existia, mas que nós vitorianos continuamos a acreditar que iria voltar. Obrigada por “acordar” o amor bairrista (que para muitos nunca deixou de existir, mas que para outros estava hibernado). Obrigada por voltar a tornar as idas ao D. Afonso Henriques prazerosas e não apenas algo que fazíamos porque amávamos o clube. Obrigada por honrar o símbolo do Rei e por “defender este clube com unhas e dentes, até à morte”.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.