Ainda a visita do Papa Francisco

A larga maioria da sociedade portuguesa, particularmente a comunidade religiosa, exultou com a vinda do Papa Francisco a Fátima. A simbologia dessa visita e o peso Mariano que Fátima ainda hoje tem no mundo saíram robustecidos com a presença do Sumo Pontífice entre nós.

Julgo, porém, que não devemos ficar-nos apenas pela projeção mediática que a tantos serviu. Impõe-se ir um pouco mais fundo, quanto à essência da visita e à envolvência plural que a mesma permitiu.

O Papa Francisco foi ele mesmo tal como o conhecemos, simples, afetuoso e propagador da doutrina da Igreja como ele a entende. Outras entidades de vários quadrantes da nossa sociedade deixaram perceber o posicionamento, que sempre assumem, em atos com uma projeção que, neste caso, somente ao Papa se deve.

Começo por referir várias contradições e interpretações quanto ao acontecimento do dia 13 de maio de 1917. Enquanto altos responsáveis eclesiásticos se contradiziam no referente à classificação teológica do acontecido, outros doutrinavam, verbalizando agora os “usos e costumes” que os mais fieis adotaram e que não questionam, assumindo o milagre na sua crença e na fé que os move.

A dignidade do momento, a responsabilidade exigida a ter em conta, face à dimensão do tema, impunha a todos um pouco mais de concertação. A especulação filosófico- teológica sobre Fátima é bem-vinda mas, aos ouvidos dos mais atentos, tanta discrepância não soou bem, nem esclareceu a essência do que ao longo de muitas décadas afirmou Fátima. Nas mentes mais exigentes perpassou um conceito do que é mais tradicional na instalada Igreja de hoje, que o papa Francisco combate, mas que não é seguida por conveniência.

Gostaria de estar enganado mas, tal como desde o início do seu Pontificado, a Igreja atual não segue Francisco. Receia a sua interpretação do Evangelho, mascara muitas vezes a proximidade dos que mais precisam com atitudes ocas de sentido evangélico. Não segue o percurso de vida religiosa que nos vem, atualmente, do Vaticano que todo o mundo e várias religiões respeitam.

Nunca é tarde para interiorizarmos que a atual interpretação do Evangelho, nos dias que correm, se não é falaciosa é, pelo menos, desprovida de substância atualizada. Não acentua, como se exige que o faça, a exclusão dos pobres, dos desfavorecidos, dos que fogem aos traumas deste mundo poupando, ainda que, veladamente, os mais perversos interesses da sociedade contemporânea. Todos sabemos que, no uso da palavra, a Igreja não o faz mas o exemplo de Francisco exige mais. Exige que se pise o terreno do risco.

Oxalá a festa que acolheu o Papa tenha sido feita de coração aberto e voltada para um futuro propenso a seguir as pisadas que a Santa Sé várias vezes, como que isolada, a todos propõe.

A interpretação dada aos fundamentos do Evangelho nos seus primórdios, assente no exemplo da vida de Cristo terá de ser replicada, ainda que atualizada, no conturbado mundo em que vivemos. Salvo melhor opinião, só assim seguiremos as pisadas do exemplo de Cristo Crucificado.

António Magalhães, 72 anos, é presidente da Assembleia Municipal de Guimarães desde 2013. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).