Ansiedade

Não vale a pena negar, porque ninguém acreditaria, que a “nação” vimaranense vive esta semana virada para questões desportivas entre elas avultando, naturalmente, a presença do Vitória na final da Taça de Portugal em futebol.

A nossa comunidade, desde sempre tão arreigada a questões de índole desportiva e não apenas de futebol, vive estes momentos com a paixão ansiosa de quem sabe que os triunfos desportivos são também triunfos da cidade e do concelho que os utiliza legitimamente para a sua afirmação num país que cá nasceu.

Em muitas ocasiões tenho referido , com enorme surpresa dos meus interlocutores e/ou leitores que nunca nisso tinham pensado , que no desporto português a maior e mais antiga de todas as rivalidades é a existentes entre Vitória e Sporting de Braga à beira da qual todas as outras são coisa pequena e bastante recente.

E quando me vem falar da rivalidade entre Benfica e Sporting, originalmente a rivalidade entre dois bairros de Lisboa, ou entre Benfica e Porto ou Porto e Sporting que são rivalidades de depois do 25 de Abril porque antes o Porto para pouco contava, lá lhes explico pacientemente que a rivalidade entre Vitória e Braga não é em torno de títulos ou taças mas muito mais importante que isso porque é uma rivalidade com mil anos entre duas comunidades e que nos últimos quase cem se centrou mais em questões desportivas.

É uma rivalidade em diferente, muito mais intensa e incomensuravelmente mais antiga.

Que infelizmente, digo eu, ainda não teve oportunidade de ser medida numa final da Taça de Portugal entre os dois clubes que seria certamente o jogo que qualquer adepto de ambos mais gostaria de vencer.

Por mim falo.

Tudo isto para reiterar que o desporto é uma actividade central da comunidade vimaranense, uma comunidade especialmente talhada para as competições desportivas nas quais já obteve títulos, troféus, recordes, vitórias em modalidades tão diferentes como o futebol, andebol, voleibol, basquetebol, natação, automobilismo, ciclismo, artes marciais,hóquei em patins, atletismo, ténis de mesa e outras que poderia referir através dos principais clubes do concelho ou de atletas nele nascidos e que obtiveram os seus triunfos individualmente ou noutros clubes de outros pontos do país.

Esta época tem corrido bem a Guimarães.

Para além de títulos nacionais e internacionais conseguidos por atletas vitorianos em modalidades menos mediáticas mas nem por isso menos importantes, como a natação ou as artes marciais, temos assistido nos últimos dias a um conjunto de boas prestações de atletas e clubes vimaranenses nas mais diversas competições e modalidades.

O basquetebol feminino do Vitória subiu de divisão, o masculino está nas meias finais do play-off de disputa do título, o voleibol concluiu o campeonato com uma boa prestação parecendo a caminho dos seus melhores tempos, o Xico Andebol está a um passo do regresso à divisão maior, o piloto vimaranense e vitoriano Pedro Meireles acaba de fazer um excelente rally de Portugal, entre vários outros exemplos possíveis referentes a estas e outras modalidades.

Mas é no futebol que a bola “pincha” o que equivale a dizer que é lá que estão centradas as atenções maiores dos vimaranenses relativamente às principais equipas do concelho.

E aí, no que às competições profissionais toca, as notícias são todas boas!

O Vitória fez um belo campeonato e conseguiu um quarto lugar que lhe fugia desde 2003 ( longos catorze anos) a par de um apuramento para a final da Taça que é o terceiro nos últimos seis anos.

O Moreirense depois de vencer com enorme mérito a Taça da Liga conseguiu, em termos de campeonato, o seu grande objectivo que era a manutenção e assim permanecerá na próxima época entre os maiores.

O Vitória B concluiu ontem um excelente campeonato da II Liga conseguindo todos os seus objectivos , da manutenção à formação de jogadores para a equipa A, enfeitado ainda com quinze jogos consecutivos em casa sem conhecer o sabor da derrota.

E todo este encadeamento de sucessos ainda reforça a ansiedade para domingo.

Porque todos temos a clara sensação de que o triunfo do Vitória no Jamor será o coroar de um ano desportivo excepcional para o nosso concelho e todos estamos ansiosos que isso se concretize pelo que de importante para a afirmação de Guimarães significará.

Porque ao contrário do nosso adversário cuja vitória alegrará meia Lisboa e entristecerá a outra meia o triunfo do Vitória alegrará toda uma Guimarães, que vai muito para lá dos limites do concelho porque há vimaranenses e vitorianos em todo o mundo, com algumas irrelevantes excepções que não têm qualquer importância estatística ou de facto.

Para lá do excepcional que será duas das três principais competições profissionais do nosso futebol serem vencidas por duas equipas de Guimarães.

São dias de ansiedade.

Mas também de esperança e convicção nas nossas possibilidades.

Este texto, ao contrário do que possa parecer, não é sobre futebol ou desporto em geral.

É sobre Guimarães.

E o orgulho que temos em ser uma cidade, um concelho e uma comunidade tão ciosa dos seus valores , da sua História e de ser tão orgulhosamente diferente de todas as outras.

Porque somos assim? – Duas Caras

Luís Cirilo Carvalho, 57 anos, é deputado municipal eleito pelas listas do PSD. Já liderou a concelhia do partido e foi deputado à Assembleia da República 1999 e 2005 na bancada social-democrata. Foi governador civil entre 2002 e 2003. Passou pelo Vitória Sport Clube como dirigente.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico