Escrever sobre mulheres é uma questão de sobrevivência

Antes de mais nada, queria dizer que quando a Catarina Castro Abreu me desafiou para escrever esta crónica, o que agradeço profundamente, estava longe de imaginar que esta seria espaço de reflexão maioritariamente sobre assuntos de género e sobre feminismo.

Disse-me alguém um dia “não podes escrever só sobre mulheres, parece que as mulheres só escrevem sobre mulheres” e eu expliquei que é uma questão de sobrevivência. Se nós, mulheres, não falarmos, não gritarmos, aqueles que não nos vêem menos se chateiam.

Para hoje, tinha pensado trazer-vos um artigo (este aqui) sobre os novos planos de marketing para fazer (ainda mais) dinheiro com a venda de dados baseados em estados emocionais de jovens e pensar sobre o que diabo o Facebook está a fazer às nossas vidas e o quanto é que está a ganhar com isso. Mas, através de uma partilha do Facebook (de alguém que imediatamente deixei de seguir), chegou-me este artigo de Laurinda Alves cujo infelicíssimo título é “Anda um pai a criar uma filha para isto…”, a propósito das chamadas “Tenda das Tetas”, que a Laurinda, muito inocentemente, acho que apenas apareceram este ano.

E infelicíssimo porquê? Primeiro, põe ónus da educação no PAI (figura masculina) e ónus dos comportamentos devassos (palavras da autora) na FILHA (figura feminina). Ora, poderão dizer que é apenas uma expressão popular, mas é exactamente nestas expressões populares que se vê o quanto a sociedade portuguesa ainda é machista. Não são apenas os homens os machistas, mas como podemos ver, também as mulheres conseguem escrever artigos profundamente machistas como este.

Laurinda continua profundamente chocada com estas barracas onde as estudantes mostram o peito, penduram soutiens ou beijam outras raparigas – beijos de bordel, que expressão bonita! – e não está com meias palavras: diz que estas jovens confundem divertimento com prostituição. Pergunta-se: “… quem serão as mulheres que não conhecem a história das mulheres, nem as suas lutas, provações, perseguições e privações ao longo dos séculos?…” e afirma “Não só aceitam as regras do jogo, como estimulam a perversidade dos homens…”.

Ora, eu fico com urticária só de ler estas linhas. Primeiro, porque prefiro ver beijos de bordel do que ver, como vi uma vez num bar académico, dois moços a lutar entre si – a luta acabou com um moço dar uma cabeçada no nariz do outro e um esguicho de sangue. Ai, isto sim, são coisas que me revoltam as entranhas. Os beijos de bordel têm o seu lugar no domínio privado, mas prefiro sempre estas manifestações do que outras bem mais violentas.

Quanto às mulheres sobre as quais Laurinda tem tantas certezas, dizia-lhe que, se calhar, deveria pensar duas vezes. Estamos a falar de actos que – gostemos, concordemos ou não – , são feitos com consentimento das pessoas em causa. Se calhar, estas mesmas mulheres estão apenas a fazer livre usufruto do seu próprio corpo. Com que finalidade, sinceramente não me interessa nada, o que me interessa é que seja feita de livre e espontânea vontade.

Numa coisa Laurinda e eu estamos perfeitamente de acordo: “O efeito manada é perverso e estupidificante.” Continuarmos a educar os nossos filhos sem sentido crítico e encaixá-los em papéis de género pré-determinados dá neste tipo de generalizações: homens perversos e mulheres que ou são recatadas ou são devassas.

Esta polaridade é ridícula. As mulheres não são do bem e os homens não são do mal. A sociedade é machista e põe a mulher num lugar secundário. Infelizmente, não são os homens os únicos machistas, há muitas mulheres que também o são, e uma data de gente, de ambos os sexos que não perde minutos do seu dia a pensar nesta questão. À afirmação da Laurinda Alves que culpa os novos módulos familiares por todos estes comportamentos, quando diz “As famílias já não são o que eram…”, apetece responder: mas os valores são os mesmos, o jogo é o mesmo, os papéis são os mesmos.

Curiosamente, Laurinda choca-se com muita coisa que é feita de livre e espontânea vontade, mas não a vejo chocar-se com esta moda agora que os jovens têm de filmar outros jovens em situações vulneráveis e publicar vídeos de outros sem permissão este mundo digital fora.

A minha questão é: mais do que termos jovens que trocam beijos por álcool, temos uma geração que não sabe o que é o respeito pelo próximo. E isto faz-nos pensar no que nos estamos a tornar como sociedade.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.