A Herdade da Comporta de ontem e a de hoje

Quem teve a oportunidade de ver a excelente reportagem de Hugo Franco “texto” e Tiago Miranda “fotos”, no último número do Jornal Expresso, por pouco sensível que seja, fica incomodado com a descrição que nos transmitem, quer escrita quer visual, do que se passa, hoje, na Herdade da Comporta e noutros latifúndios daquela região alentejana.

Permitam-me assumir que me tocou profundamente tal relato porque, para lá dos sentimentos que muitos de nós possuem para este novo conceito de escravatura, já vi este “filme” no norte de Angola, nas roças de café, onde o modelo era uma cópia ainda mais chocante do que o agora descrito. Também em França, na década de setenta, cujas condições de vida de muitos dos nossos compatriotas não era tão negativa, mas andava por lá perto.

Já passaram várias décadas desde que muitos de nós se condoeram com o sofrimento dessas pessoas e, sabendo que em vários países asiáticos e africanos (pelo menos) há situações gritantes similares, não podemos calar a revolta que sentimos quando isto se passa, no Portugal de hoje, no primeiro quartel do século XXI.

A intervenção do SEF-ACT, tal como a peça o enuncia está no bom caminho, pois visa, com a sua ação, a proteção da dignidade das pessoas, fazendo cumprir a lei vigente entre nós. Percebe-se, porém, que há fragilidades difíceis de debelar para combater tal flagelo.

Um país como o nosso, que começa, finalmente, a ser considerado no espaço europeu, e ainda para fazer jus à nossa história recente, não pode pactuar com situações tão aberrantes como as que acontecem na Comporta, em Grândola e noutros pontos do Alentejo, para lá do que se passa, aqui e ali, noutras zonas do país. Em todos estes locais parecem imperar as redes de tráfico humano que merecerão um combate contínuo e exigente, impondo o mínimo de condições de vida a tantos que ajudam a criar riqueza aos nossos empresários. Estes só merecerão tal nome se não permitirem nas suas empresas tão vergonhosa conduta que, nem aqueles que servem, mais bem pagos, assumem dar a cara, tão aviltante é a sua função, tal como é descrito na reportagem a que me refiro.

O tema de fundo, ainda que com outra sofisticação e sem ser fisicamente tão ultrajante, mas psicologicamente aviltante, acontece em várias empresas, algumas estatais, que recorrem ao denominado trabalho temporário.

A lógica de pretensos líderes intermédios, que na prática comandam as empresas que aí recrutam os seus assalariados, tocados pelos ideais do neoliberalismo, fazem de gente tão dotada quanto eles, uns títeres que manipulam a seu bel-prazer, cantando hossanas aos seus conceitos de gestão. Insensíveis, olham apenas para o seu umbigo, desprezando a essência humanista dos verdadeiros princípios que enformam a gestão de recursos humanos. Neste caso mais específico, estou a referir-me ao que se passa em certas empresas estatais que, para alcançarem determinado tipo de objetivos, não olham a meios e contrariam o posicionamento político do atual Governo, a quem devem obediência de princípios de gestão.

O atual Governo, que verbaliza e pretende dignificar quem trabalha, tem de alterar a lei que tal permite, pois como tantas vezes o Senhor Primeiro Ministro afirma, se tivermos trabalhadores responsáveis, com remuneração compatível e tratamento civilizado de quem gere, o clima laboral é outro, a produtividade aumenta e a paz social deixa de ser uma miragem.

A emblemática Comporta era, há tempos, um local onde umas Senhoras da elite lisboeta iam brincar aos pobrezinhos. Hoje, ao que se vê, ainda cultiva uma quase escravatura que Portugal não pode permitir e o atual Governo também não.

Não se podem descurar os devaneios que agora vieram a lume. A exigência de um governo humanista que pugna pela dignificação do trabalho não deve temer alguns falsos empresários da nossa sociedade. Sei que há honrosas exceções que urge acarinhar, mas outros estão particularmente preocupados com o lugar de destaque que ocupam na lista dos mais ricos do país. Não é pecado que tal aconteça, mas esse estatuto só lhes assentará bem, quando resultar da gestão competente dos seus quadros e do laborioso esforço dos seus trabalhadores, remunerados em função do seu efetivo rendimento laboral.

Se estes dois elementos não se conjugarem, o ranking da sua riqueza não representará o êxito da empresa, mas sim a tirania contemporânea de quem gere, mesmo que humanamente incompetente.

António Magalhães, 72 anos, é presidente da Assembleia Municipal de Guimarães desde 2013. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).