Protagonismo barato

Não é de agora, nem foi em Guimarães que isso foi descoberto, que o mundo do desporto dá um enorme protagonismo àqueles que dele não fazendo parte podem dele tirar dividendos políticos se estiverem no sítio certo na hora certa.

É uma constatação que atravessa transversalmente todos os quadrantes políticos (vem a talhe de foice – sem piada à foice – lembrar que na União Soviética o desporto era uma questão de Estado encarada como forma de afirmação política) da direita à esquerda porque no que toca à captação de votos as diferenças acabam por não ser tantas como às vezes se pensa.

E Portugal não foge à regra.

Bastará pensarmos no aparato com que selecções e atletas são recebidos, agraciados e condecorados quando obtém triunfos, títulos e medalhas em competições internacionais sejam campeonatos europeus, mundiais ou Jogos Olímpicos nas mais diversas modalidades pelos diversos agentes políticos desde presidentes da república a governos e autarquias locais debaixo daquele principio de que “se há festa há que ficar nas selfies da festa”.

E então se a selfie puder ser com grandes campeões como Cristiano Ronaldo ou Nélson Évora, entre outros exemplos possíveis, ainda melhor.

É assim há muito tempo.

Ainda anteontem, para não ir mais longe, na tribuna de honra do Jamor lá estavam o Presidente da República e o primeiro-ministro (o que não acontece em mais nenhum país numa manifestação desportiva deste género) mais alguns membros do governo e autarcas dos dois concelhos cujos clubes disputavam a final todos eles denotando evidente satisfação por ali estarem naquela que é a grande festa do futebol e que tem audiências televisivas na casa dos milhões de telespectadores.

Sempre assim foi, embora noutros tempos nem tanto, e assim continuará a ser.

Naturalmente que o Poder Local, também ele, não perde oportunidade de ver os seus agentes ganharem popularidade e simpatias junto da comunidade aparecendo nos momentos de festejos desportivos e fazendo passar a mensagem subliminar de que quem aparece junto a campeões também campeão é!

E por isso as câmaras adoram receber as equipas que ganham títulos, os atletas que batem recordes e/ou ganham troféus, os desportistas pertencentes à comunidade e que se evidenciam ainda em equipas de outros concelhos ou noutros países onde desenvolvem a prática desportiva.

Guimarães, concelho de fortes tradições desportivas, não foge evidentemente à regra e os seus autarcas têm nos últimos anos tido a oportunidade de aparecerem em múltiplas ocasiões junto de equipas e atletas vimaranenses que ganham competições.

E, claro, com direito às selfies da praxe.

Mesmo em casos, a sua esmagadora maioria para não dizer totalidade, em que nenhum dos méritos associados a títulos e troféus pode ser minimamente assacado à acção do município ou dos seus dirigentes políticos.

Para não ser exaustivo no exemplificar lembro, ao correr da pena, as homenagens a João Sousa, ao Moreirense vencedor da Taça da Liga e muito recentemente às basquetebolistas seniores do Vitória pela subida de divisão que tiveram “direito” a uma selfie com o presidente da câmara que muito provavelmente não assistiu a um único dos seus jogos mas que não resistiu a colar-se ao seu sucesso.

Claro que quando se trata do Vitória, o maior clube do concelho e que tem mediatismo nacional e internacional, a tentação de colagem aos seus sucessos é absolutamente irresistível (até pelo peso emocional do clube na comunidade) pelo que nenhuma ocasião de promoção à custa do clube pode ser desperdiçada.

E por isso anteontem, quer no almoço oficial da final da taça de Portugal quer na tribuna de honra do Jamor, lá estava o presidente da câmara a aproveitar o mediatismo  que o Vitória confere, o que não o tornando diferente de muitos dos seus congéneres ainda assim merece um severo reparo pelo que a seguir explicitarei.

Como é sabido, não importa agora se bem se mal, o Vitória esta época decidiu uma política de patrocinador principal para as camisolas que implica a venda do espaço jogo a jogo pelo que foram várias as empresas que ao longo da época apareceram na frente das camisolas vitorianas.

A final da taça não fugiu, nem podia fugir, à regra pelo que a SAD vitoriana numa inatacável lógica de rendimento comercial vendeu o espaço à região de turismo do Porto e Norte de Portugal que terá sido quem melhor proposta apresentou.

Fez bem o Vitória ao vender ao melhor preço e fez bem a região de turismo ao aproveitar a oportunidade de se promover num evento televisionado para muitos milhões de pessoas.

Mas fez mal, muito mal, a Câmara de Guimarães ao não aproveitar esta oportunidade de ouro para divulgar o nosso município, fosse em termos do seu centro histórico património mundial fosse na promoção da candidatura de Guimarães a “capital verde” europeia, como já fizera no passado outra câmara do mesmo partido (mas com outro presidente) em relação à CEC 2012 patrocinando as camisolas com que o Vitória defrontou o Porto na final de taça de 2011.

Assim do Vitória a Câmara só quis o protagonismo conferido pela presença do seu presidente no Jamor nada se importando que as camisolas do principal clube do concelho fizessem publicidade expressa ao Porto e a uma região de turismo de que Guimarães faz parte mas sem que o seu nome apareça na designação oficial da mesma o que significa que é um facto desconhecido da esmagadora maioria das pessoas.

Ou seja a Câmara e o seu presidente colheram sem semearem, sem investirem, sem pagarem.

Foi só lucro.

Em Guimarães o protagonismo à custa do Vitória está barato…

Luís Cirilo Carvalho, 57 anos, é deputado municipal eleito pelas listas do PSD. Já liderou a concelhia do partido e foi deputado à Assembleia da República 1999 e 2005 na bancada social-democrata. Foi governador civil entre 2002 e 2003. Passou pelo Vitória Sport Clube como dirigente.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.