Quem corre por gosto não cansa ou desabafos de quem está quase, quase a ir de férias

Há poucos dias, conversava com uma amiga e colega voluntária de uma associação vimaranense sobre o facto de a expressão “quem corre por gosto não cansa” ser tão mentirosa, que nos faz não raras vezes quebrar limites daquilo que é razoável, ou mesmo saudável.

Falo de trabalho: do emprego, trabalho doméstico, do tamanho das nossas ambições, do que nos propomos aprender/realizar ao longo da vida.

Começo com um disclaimer: gosto muito de meu emprego, assim como gosto dos meus colegas de trabalho. Ir trabalhar não é, para mim, um acto de sofrimento. Não consigo conceber a minha vida a passar 8 dias a fazer algo com que não me identifique em troco de um salário. Já estive algumas vezes nessa situação e fui terrivelmente infeliz. Não quero nunca voltar a esse lugar.

Porém, há dias em que caminho da estação de Espinho para o escritório e apetece correr para a praia e ficar ali o dia todo. Há dias tão incrivelmente bons que não percebo porque não são feriado no Norte Litoral deste país: dias quentes, sem ponta de vento. O tempo atmosférico não concebe esta coisa de haver períodos de trabalho e períodos de descanso, nem alturas de férias – o que causa frustrações gravíssimas e maus humores agudos.

Tenho andado com esta ideia na cabeça se não andamos com as prioridades trocadas. A excessiva ambição e dedicação ao trabalho rouba-nos tempo vital para duas coisas: relações e o ócio.

As relações humanas, sejam elas de que natureza forem (familiares, amizades, românticas), precisam de tempo para convivência “ao vivo” (o chat do Facebook não conta: um -0- não é igual a um abraço apertado de um amigo), precisam de tempo para a partilha, para o diálogo que vai além do que fizemos a semana passada, precisam de tempo para enraizar. Estou certa que nada do que conquistemos na vida nos fará felizes se não tivermos ninguém com quem o partilharmos de coração aberto, seja ele um namorado/a, amigo/a, irmão/irmã, primo/a e por aí fora.

Quanto ao ócio, deveria pertencer aos direitos fundamentais do indivíduo. Como podemos desenvolver o nosso pensamento se não nos damos a nós próprios espaço de apenas estarmos e pensarmos? Olho muitas vezes para o Silvestre e vejo o tempo que ele passa simplesmente a estar e a olhar – não estará a pensar, diz que é uma exclusividade da espécie humana, as invejo-lhe o tempo que ele tem para simplesmente ser. E mesmo para quem como eu trabalha em áreas criativas, não ter tempo para não fazer nada e apenas deixar as ideias fluírem é matar a criatividade.  Acredito piamente que o nosso cérebro precisa de tempo em sossego para conseguir processar todos os inputs com que o estamos constantemente a bombardear.

Eu sei estas palavras não vão de encontro ao discurso dominante: temos de produzir mais, ganhar mais skills, aprender novas línguas – agora há apps no telemóvel para isso, tirar cursos para melhorar o currículo – também há cursos online e gratuitos! – para nos habituarmos aos novos mercados de trabalho. Mas também confesso, não quero saber, nunca quis saber dos mercados. Não são esses mercados que me fazem torradas e chá quando estou doente e não consigo sair da cama.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.