A singular paixão vitoriana

O desporto, desde a Grécia antiga, sempre teve perante os cidadãos de uma comunidade, uma importância que, para lá da vertente atlética, atingiu até o patamar do divino.

É fantástico percecionar, a tão longa distância temporal, a dimensão que o desporto passou a ter na vida das pessoas, organizadas à época, no país citado, em várias cidades estado. Estas ufanavam-se dos seus desportistas, verdadeiros heróis, glorificando os seus feitos através das artes, aumentando assim o fervor dos seus seguidores.

Este breve introito sobre o desporto na Grécia antiga, continuado no Império Romano, veio até nós com múltiplas variantes, que nem as terríveis guerras conseguiram fragilizar a sua vital importância, que chegou até aos nossos dias.

O desporto em geral e as modalidades que hoje se praticam, consoante a sua preferência em várias partes do globo, arrebatam multidões, é eclético e, tal como nas suas origens, conduz ao “Olimpo” as suas figuras mais proeminentes.

Dito isto em síntese, convém, então, debruçarmo-nos sobre o contágio que os heróis dos nossos dias transmitem aos apaniguados da sua modalidade preferida e indagar o porquê de tão exacerbada paixão. O futebol, o nosso desporto rei, incute nos seus seguidores uma tal “fé” que remove montanhas, na ânsia de acompanhar os seus ídolos nos pleitos desportivos, onde quer que se realizem.

Fiquemos pela nossa casa que, na fruição do êxito dos seus heróis, pede meças a qualquer outra agremiação desportiva, nacional ou estrangeira. O que os vitorianos sentem pelo seu único clube, releva do desporto em si (o futebol em particular) mas é muito mais do que isso. A alma vitoriana assenta numa conjugação de valores que têm origem nos primórdios da nacionalidade. O conceito legítimo de sermos o berço da Pátria alimenta, ao longo de séculos, o orgulho da nossa história como nação. Cada vitoriano é um Afonso Henriques dos nossos dias, pelejando contra os adversários, na ânsia de levar o seu estandarte até ao mais alto patamar das pugnas desportivas em que se envolve. É o Vitória que sustenta a contagiante febre plural dos seus adeptos, mas é algo mais, muito mais, que torna o seu estatuto tão singular. O sentido de pertença da sua terra, o seu bairrismo exacerbado, a longínqua ideia, maturada pelo tempo, de que somos únicos, que o berço da nacionalidade é aqui, permite um “coração” que mais ninguém possui. Esta mescla, envolta de sentimentalismo, torna incomparável o seu clube predileto e único.

A jornada do Jamor no passado domingo, se sobre o tema dúvidas houvesse, foi o expoente máximo deste fervor quase religioso. A massa associativa presente calou uma outra de um grande clube, que não possui a alma vitoriana. Subjugou-a pelos valores que atrás referi e que, naturalmente, aquela não pode possuir.

Mesmo na hora em que não podemos celebrar a vitória, estivemos à altura da nossa reputação. As lágrimas que tantos verteram, a começar pelo nosso Presidente, não eram lágrimas de revolta, nem de desespero, antes, mensuravam o que de mais sublime tem uma paixão para dar, quando o sonho, ainda que por pouco, não foi alcançado.

Lágrimas sentidas, desde a cúpula até à base, numa agremiação desportiva como é o Vitória, não revelam tristeza, antes, são a seiva das aspirações futuras de um clube de eleição como é o Vitória.

Honra e reverência a esta dor cívica que calou fundo e mereceu rasgados elogios, até dos nossos mais fanáticos adversários.

Vitória sempre! Vitória até morrer.

António Magalhães, 72 anos, é presidente da Assembleia Municipal de Guimarães desde 2013. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).