O conturbado mundo dos nossos dias

Ainda que queiramos confinar-nos ao sossego do espaço que quotidianamente fruímos, a voragem da informação que nos vai chegando impõe que não prestemos atenção ao que acontece à nossa volta e que, ainda que indiretamente, também nos diz respeito, e influencia as nossas vidas.

Para esta agitação recente, que a todos envolve, conjugam-se vários fatores que originam esta complexa perturbação, eivada de tragédia. O mês do Ramadão, as eleições no Reino Unido e em França e também os estilhaços que nos chegam do outro lado do Atlântico, são a causa próxima do recrudescimento deste terrorismo “low cost”. A sinistra figura de Trump que tenta impor os seus conceitos primários de governação, estiolam tudo o que era convencional entre nós e acicatam, também, este frenesim dos radicais.

O tema está na ordem do dia, baralha a ordem mundial estabelecida que deste conceito já pouco tem e multiplica a incerteza das decisões a tomar, sobretudo na Europa e no Médio Oriente. A vida diária dos cidadãos precariza-se em vários países, sem solução à vista.

Distantes fisicamente dos casos mais pungentes, flagelados todos os dias por tenebrosas imagens, estas passam a ser quase banais, pese embora os nossos conceitos humanistas. Relativizamo-las se acontecem num país distante, crescem de importância à medida que, territorialmente, se aproximam do nosso habitat.

Ontem a França e a Bélgica, agora o Reino Unido, ontem, hoje e amanhã o Iraque ou o Afeganistão, perturbam as nossas vivências físicas e emocionais.

A continuidade destes episódios revela a incapacidade dos que pugnam pela paz mundial em que já não acreditamos. Reconhecemos a sua boa vontade, mas sentimo-los impotentes perante o ódio, sempre conjugado com interesses espúrios, a seiva de crimes globais desta natureza.

É bom lembrarmo-nos que o que agora nos horroriza não surgiu do nada. Alguns países ocidentais são os fautores do desespero que outros povos já sentiram, originando as consequências do que agora recai sobre nós.

A guerra dos nossos dias, sem vencidos nem vencedores, tem múltiplas frentes de batalha. É sempre inesperada e sinistra, de violência gratuita, mas de alvos bem definidos. Acontece habitualmente num espaço físico de convívio pacífico que, irracionalmente invadido, é alimentado pela vingança, tentando saldar o que outros seus irmãos já sofreram. Invocam um falso culto religioso que até os seguidores sinceros da sua religião abominam.

Perante tudo isto, clama-se por medidas que combatam com eficácia esta tormenta, já dispersa por toda a parte. É que, se outrora houve inocentes de lá, também os temos hoje entre nós.  As soluções apresentam-se difíceis de encontrar pelas caraterísticas e diversidades, quer dos locais de atuação, quer dos métodos utilizados. Sabe-se, ainda, que quem pode colaborar na tentativa de erradicação desta turbulência nem sempre o faz de boa-fé. A proliferação do espaço de atuação, as respostas a esta violência cega, não percecionam um trabalho conjugado que permita estancar a dimensão das repetidas iniciativas, provocadas pelo inimigo global.

Interessados em alcançar a paz, acompanhemos este período complexo da história da humanidade. O que está a acontecer, pese embora todos os esforços que tantos fazem, contrariados por muitos outros, vai mesmo mexer com o nosso futuro coletivo.

 

António Magalhães, 72 anos, é presidente da Assembleia Municipal de Guimarães desde 2013. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).