Os que lá caem e os outros que não

Há alguns anos, numa escola secundária desta cidade, aceitei permutar o meu horário lectivo com uma colaboração no projeto do Centro Novas Oportunidades que ali se lançara e participei na formação de muitos adultos que completavam os ciclos de ensino.

Entre outros grupos, conheci um, particularmente interessante, que reunia exclusivamente funcionários da autarquia.  Inquiri os formandos, antecipando um possível envolvimento político no esforço local de formação da população. O grupo, bem-disposto, esclareceu que estavam por iniciativa própria e que todos os participantes detinham laços de parentesco entre si: mãe, pai, filhos, filhas, tios, primos e primas em primeiro grau. Um senhor, com humor, apressou-se a referir que o mais difícil fora arranjar colocação para o primeiro.

Cabia-me a formação para a Cidadania e Profissionalidade. A estratégia pedagógica mandava integrar os saberes “vividos”. Em muitos casos, imperava fechar a boca, respira, pensar e avançar. Tudo isto em fracções de segundos. Outras partes do corpo também falam. Perante o meu silêncio, fugaz, um senhor justificou que a alternativa seria seguramente pior para todos. Não veio ao caso, poderia ter acontecido, o mérito de quem faz pela vida. Antes, apontou-se uma inevitabilidade. A vida num jogo de sorte: os que lá caem e os outros que não.

A semana passada, num encontro fortuito de esplanada, um elemento eventualmente com algumas responsabilidades políticas queixava-se que, em tempos, cerca de três mil candidatos se apresentaram a um concurso para a contratação de auxiliares educativos. Para esse senhor, a inoperacionalidade da forma de contratação advinha da sobrecarga de trabalho para a seleção dos candidatos que recaíra sobre a autarquia. E vai desta, defende que se acabe mesmo com a publicidade, que o passa palavra bastava para encontrar os melhores. Seria uma possibilidade. E o resultado?

O trabalho é um valor da nossa sociedade. O emprego, um direito elementar. Não há dignidade sem uns trocos no bolso. Privar alguém, sob qualquer forma, de aceder ou dificultar o acesso ao emprego constitui um atentado à dignidade humana. A promessa de emprego, como arma política, a uns, com a exclusão de todos os outros, é a forma mais aviltante de subjugação do indivíduo. Aqui, somos todos culpados. Toleramos, fazendo deste tema tabu. Nunca saberemos se o fulano ou sicrano, familiar ou amigo do presidente, ministro, vereador ou outro, é de facto competente e foi a melhor escolha. Antes, fica a justificação do privilégio. Até nisto há desrespeito pelo trabalho enquanto valor, pela dimensão da profissionalidade na vida do indivíduo.

Somos, como outros países ocidentais, ou seremos em pouco tempo um país de velhos. Os melhores, muitos jovens, saíram e saem do país. Desenganem-se aqueles que acreditam que o preço é o único valor no trabalho. A forma como se apresentam as oportunidades, a realização e o reconhecimento profissional são determinantes para uma vida feliz, em qualquer extrato social. O jovem que emigra reconhece que cá dentro não há lugar para a esperança numa carreira profissional. A educação reforça a capacidade de sonhar. Os nossos filhos, mais bem formados e informados, não desistirão certamente dos seus sonhos. E nós também não.

Paula Magalhães, licenciada em Ciências Económicas e Empresariais, contabilista, professora e formadora para as áreas de formação de Economia e Contabilidade, foi, entre outras intervenções políticas, deputada municipal na Assembleia Municipal de Guimarães, colaborou na redação do jornal O Povo de Guimarães, desde 1989 até ao seu desaparecimento, foi ainda diretora e presidente da direção da cooperativa, já extinta, O Povo de Guimarães, CRL.