António Magalhães

Com a assembleia municipal da passada sexta-feira, e salvo a pouco provável realização de uma assembleia extraordinária em Setembro, terá terminado o notável percurso autárquico de António Magalhães que por vontade própria, há muito anunciada, não voltará a ser candidato aos órgãos municipais.

Foram quase quarenta anos de vida autárquica e mais de quarenta de vida política repartidas entre a Assembleia da República, onde esteve treze anos, e a Câmara de Guimarães a que presidiu durante vinte e quatro anos tendo sido anteriormente vereador quer na oposição aos executivos liderados por António Xavier quer com pelouros no executivo de Manuel Ferreira tendo nos últimos quatro anos presidido à Assembleia Municipal.

Toda uma vida dedicada ao serviço público.

Comecei a conhecê-lo de mais perto em 1989 quando fui eleito pela primeira vez para a assembleia municipal, curiosamente na mesma eleição em que ele venceu  e se tornou presidente da câmara, e todo o meu conhecimento dele foi a partir daí construido na oposição aos seus executivos.

A memória que tenho desse primeiro mandato já está algo perdida no tempo mas não errarei muito se disser que desde logo, e em consonância com o que vinha sendo o seu percurso , se revelou um autarca determinado, um adversário difícil no debate político, um homem incansável na defesa do seu projecto para Guimarães.

Nesse primeiro mandato a minha participação na assembleia municipal foi muito escassa em termos de intervenções (duas ou três) mas recordo bem os acalorados debates que mantinha com o então líder do PSD, professor Lemos Damião, que por vezes o conseguia tirar do sério com alguns “números” bem preparados e que executava com a experiência de muitos anos de política parlamentar em Lisboa.

Nos dois mandatos seguintes, entre 1993 e 2011, tendo então assumido responsabilidades de vice presidente e depois presidente do grupo parlamentar do PSD tive oportunidade de manter alguns debates no parlamento municipal com António Magalhães que se revelaram na generalidade bem difíceis porque ele sabia a “lição” na ponta da língua, dominava os dossiês e levava muito a sério a sua presença na assembleia municipal.

Era um adversário duro, às vezes contundente, aqui ou ali excessivo mas a ideia com que fiquei desses tempos foi sempre a de um respeito mútuo que nunca foi quebrado e do gosto que dava debater com um adversário daquela envergadura.

Ainda por cima em tempos difíceis para o PSD de Guimarães, em que ao contrário de hoje não se via nenhuma luz ao fundo do túnel, e em que sabíamos que por maior que fosse o nosso empenho em fazer oposição na assembleia e na câmara o resultado das próximas eleições seria sempre nova maioria do PS e de António Magalhães.

Entre 2001 e 2009, por razões que não interessam para este artigo, não integrei as listas para os orgãos autárquicos pelo que a minha presença neles se resumiu a algumas sessões da assembleia municipal a que fui assistir , com todo o gosto, como munícipe.

Curiosamente nesse período, e durante apenas um ano (por razões que também não interessam para este artigo mas a que um dia me referirei noutro) , exerci o cargo de governador civil do distrito de Braga e nesse período mantive um relacionamento próximo com todos os municípios do distrito e naturalmente também com o de Guimarães.

E devo dizer que nesse período António Magalhães manteve comigo um relacionamento impecável, em várias conversas que tivemos sobre os interesses de Guimarães e em cerimónias e eventos em que participamos nas qualidades de presidente de câmara e de governador civil, percebendo perfeitamente que eu sendo nomeado pelo governo defendia a sua política mas simultaneamente estava ao lado do município naquilo que podia fazer para ajudar a resolver problemas.

Em suma era alguém com quem podia falar!

Não esquecerei nunca, porque a pessoa está sempre antes do político, que quando apresentei a minha demissão do cargo de governador civil os primeiros presidentes de câmara que me ligaram a dar uma palavra amiga (que nesses momentos cai especialmente bem) foram, para além de Fernando Reis, um amigo de muitos anos que então presidia à Câmara de Barcelos e que naturalmente foi o primeiro a fazê-lo, Joaquim Barreto de Cabeceiras de Basto e António Magalhães.

Alguns presidentes de câmara do PSD, que durante esse ano de exercício do cargo me ligaram dezenas de vezes a pedirem o que bem entendiam e com alguns dos quais mantinha uma relação de alguma amizade, nunca o fizeram provavelmente por falta de tempo…

Voltei à assembleia municipal em 2009.

Como de costume na oposição e como de costume com António Magalhães a presidente.

Sempre o mesmo estilo, a mesma combatividade, a resposta na ponta da língua mas um político mais calmo, mais moderado, a reflectir os muitos anos de experiência e de exercício do cargo.

Em 2013, a lei de limitação de mandatos impediu-o de nova candidatura e da mais que provável nova vitória dados os seus índices de popularidade se manterem muito altos sem neles se reflectir o desgaste de muitos anos de poder.

Foi então que assumiu uma candidatura à assembleia municipal, encabeçando a lista do PS como não podia deixar de ser, e tendo sido o mais votado assumiu naturalmente a presidência da mesa da assembleia.

Devo dizer que eu, como muitos, olhamos para essa nova presidência de António Magalhães com alguma preocupação.

Porque depois de vinte e quatro anos em que fora um “ponta de lança” agressivo e goleador na defesa das sua políticas e um “defesa” coriáceo e implacável na marcação aos adversários tínhamos as maiores dúvidas que conseguisse vestir a camisola de “árbitro” com o distanciamento e a alguma imparcialidade que isso significa.

Hoje, passados quatro anos, é imperioso dizer que exerceu magnificamente as suas funções de “árbitro”.

Nunca precisou de mostrar “cartões vermelhos”, os “amarelos” mostrou-os apenas quando não podia deixar de ser, foi firme quando se impunha mas a imagem que dele ficará como presidente da assembleia municipal é a de um homem sensato, inteligente, moderado e com uma paciência que acredito ninguém saberia nele existir.

E foi precisamente essa paciência, a par naturalmente de outras qualidades das quais a experiência não é seguramente a menor, que o ajudou a terminar o mandato debaixo do aplauso sincero de todas as bancadas (PS, PSD, CDS, PCP, MPT, Verdes, BE) que ao fim de quatro anos constataram com satisfação e reconhecimento que António Magalhães soube ser o presidente de todos os deputados municipais e não apenas daqueles que o elegeram.

Pode dizer-se que acabou em beleza o seu percurso de serviço a Guimarães.

É muito cedo para se fazer a História dos muitos anos de vida política de António Magalhães.

Teve momentos muito altos como a Capital Europeia da Cultura ou o consagração do Centro Histórico como património mundial e outros muitíssimo difíceis como a elevação de Vizela a concelho e o trauma que isso provocou em Guimarães.

Uma coisa tenho como certa e embora seu adversário político reconheço-a sem qualquer problema: António Magalhães foi a mais marcante figura, como autarca, do Guimarães pós 25 de Abril e seguramente que a História reconhecerá o seu papel determinante  na construção do concelho que hoje temos.

P.S. Sem qualquer hipocrisia devo dizer que se António Magalhães voltasse a ser candidato à assembleia municipal nas autárquicas de Outubro isso torna-las-ia bem mais difíceis para a coligação “Juntos por Guimarães” pelo que a sua retirada de cena é mais um motivo para termos esperança de que elas corram muito bem.

Mesmo assim nunca é motivo de satisfação quando um adversário de valor se retira.

Porque a democracia prestigia-se com os bons!

Luís Cirilo Carvalho, 57 anos, é deputado municipal eleito pelas listas do PSD. Já liderou a concelhia do partido e foi deputado à Assembleia da República 1999 e 2005 na bancada social-democrata. Foi governador civil entre 2002 e 2003. Passou pelo Vitória Sport Clube como dirigente.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.