A Crise Nacional do Momento

 

Depois de um longo período em que, ainda que paulatinamente, os portugueses foram sentindo o esforço de uma governação positiva e otimista, eis-nos, repentinamente, mergulhados num furacão de graves acontecimentos que ensombram o esforço feito até aqui e que exigem respostas sólidas que explicitem o porquê do acontecido.

Este raciocínio, como era previsível, implica um exaustivo estudo de especialistas, e tempo, para trazer à luz do dia as causas e as soluções que o país reclama conhecer.

Foi, por isso, criada uma comissão, votada por unanimidade no parlamento, concedendo à mesma dois meses para concluir o seu trabalho.

Abordo, como é óbvio, a tragédia de Pedrógão porque, de tudo o mais que aconteceu, é a que impõe drásticas e efetivas medidas, dada a relevância dos problemas causados e das implicações que urge conhecermos.

Os tradicionais gladiadores da bravata, acompanhados por certos órgãos de informação que primam pela pouca objetividade, sem esperar pelos resultados do trabalho dos especialistas para tal designados, vão martelando a tragédia, no afã de minorar as insuficiências de ação política do passado, que tão gravosas foram para os portugueses. Cavalgam despudoradamente a onda da desgraça e comprazem-se com o atavismo da sua conduta profissionalmente pouco séria.

O que nós precisamos de saber, mas da parte de quem assumiu tal incumbência para o efeito, impõe um argumentário sustentado relativamente ao que falhou, quem errou e porquê e se a situação que à tragédia conduziu, é conjuntural ou estrutural, como tantos afirmam. A partir daqui, clamamos por propostas claras e objetivas que, ainda que a médio prazo, nos deixem a certeza de que há que palmilhar um caminho diferente, mas seguro, como tantos estudos e opiniões credíveis o já reconheceram no passado.

Ao contrário de muitas pessoas com quem já abordei o tema, a questão de Tancos, sendo grave por macular o prestígio das Forças Armadas, é de solução relativamente fácil.

Os acontecimentos de Pedrógão e dos concelhos circunvizinhos, digam o que disserem os reputados especialistas escolhidos, impõe um tremendo desafio a todos nós. O problema maior não está no diagnóstico, mas sim na terapia para a doença do desleixo á portuguesa, que é endémica e, porventura, continuará a sê-lo.

O país não está preparado para aceitar decisões fraturantes que, naturalmente, nos proporão. A curto prazo, tudo cairá de novo na modorra que nos caracteriza e quando for necessário colocar no terreno o que urge fazer, surgirão as tradicionais resistências que, já há décadas, não permitem aplicar soluções que outros especialistas já detetaram e por elas clamaram.

Em vários recantos do país profundo temos uma vivência quase medieval, cuja população isolada e envelhecida, votada ao abandono, é a principal vítima da letargia em que se deixou cair grande parte do nosso interior semiabandonado. Duvido de um repentino, sério e plural interesse de abrangência nacional, visando atacar a questão de fundo, mesmo quando ainda choramos as vítimas da tragédia que a todos tocou.

Quanto a Tancos, o tradicional brio e organização das Forças Armadas, momentaneamente afetado por este epifenómeno, vai rapidamente repor o seu estatuto com a disciplina, o pragmatismo e o rigor que as caracteriza. Os militares são o primeiro e o último recuso de um país, seja ele qual for, especialmente o nosso. Não é por acaso que os nove séculos de história de que nos orgulhamos assenta, particularmente, na heroicidade de todos quantos, ao longo deste período temporal, deram o melhor na defesa da sua e, também, nossa Pátria.

António Magalhães, 72 anos, é presidente da Assembleia Municipal de Guimarães desde 2013. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).