O Distrito Político

Embora os distritos sejam uma forma de organização territorial com cada vez menos sentido, face a outras lógicas dominantes, e que mais dia menos dia serão definitivamente extintos (espera-se que quando houver coragem para regionalizar) até lá continuam a existir e na lógica da sua existência assenta também a organização dos partidos políticos.

A dois meses e meio das eleições autárquicas, e com o prazo de entrega de listas a esgotar-se dentro de três semanas, estão mais ou menos definidas as principais candidaturas em cada um dos catorze concelhos havendo sempre a possibilidade de até ao ultimo dia ainda aparecer esta ou aquela candidatura independente ou deste ou daquele pequeno partido.

Numa análise não muito exaustiva (que poderá ficar,quem sabe, para outra oportunidade) há alguns circunstâncias que merecem destaque.

Desde logo a profunda divisão do PS em quase todas as câmaras que lidera  a par de outros problemas que adiante referirei.

Em Amares o actual presidente, eleito pelos socialistas, candidata-se agora pelo PSD fruto das profundas divergências com a secção local socialista que levaram a público “divórcio” vai para dois anos.

Em Barcelos há duas candidaturas do PS.

A do actual presidente e a do se ex vice presidente que entrou em ruptura com ele e protagoniza uma candidatura “independente” que de independente só tem mesmo o nome.

Em Cabeceiras de Basto mantém-se a divisão de 2013 entre os socialistas de Joaquim Barreto que concorrem pelo PS e os socialistas de Jorge Machado que concorrem por um movimento que de independente também só tem o nome.

Nas ultimas autárquicas os socialistas da equipa A venceram os da equipa B por umas centenas de votos aguardando-se com expectativa os resultados deste ano face aos “reforços” inesperados e incompreensíveis recebidos pela equipa B fruto de um trabalho de bastidores desenvolvido por alguns “cavalos de Troia” que tiveram o engenho e a arte de convencerem aqueles que nunca quiseram olhar o assunto com a profundidade necessária.

Assunto a que voltarei um destes dias.

Em Fafe , e para não fugir à regra, também o PS tem duas listas.

A oficial, liderada pelo actual presidente de câmara e que conta com o apoio da direcção nacional, e a afecta à concelhia que concorre como independente (mais uma que de independente só tem o nome) e conta com o apoio,entre outros, do anterior presidente de câmara-José Ribeiro- que é o actual presidente da concelhia.

Se a isto acrescentarmos o facto de o actual presidente levar como numero dois um personagem que já foi candidato em listas do PS e da CDU e que nas ultimas eleições liderou uma lista de independentes , e que é filho de um histórico presidente de câmara socialista, percebe-se bem a “sopa da pedra” que se cozinha em Fafe.

Em Guimarães, caso raro no distrito, o PS só tem uma lista.

Não porque não existam divergências, e ao que consta bem profundas, mas porque a sensação de um poder periclitante foi a “cola” que uniu a família “desavinda” na expectativa que as eleições, de uma forma ou de outra, clarifiquem uma situação que não tem condições para subsistir por muito mais tempo.

Em Terras de Bouro o actual presidente, eleito pelo PS, decidiu não se recandidatar e ao que parece prepara-se para dar público apoio ao candidato apresentado pelo PSD o que num concelho tão pequeno pode ser um claro sinal de viragem na maioria que lidera a câmara.

Finalmente em Vizela também existem duas listas socialistas, fruto das divergências entre o actual presidente-Dinis Costa-que não se recandidata e o seu ex vice presidente que lidera,como não, uma lista de “independentes”.

Se a este panorama pouco agradável se juntar a fragilidade da maior parte das candidaturas socialistas em câmaras lideradas pelo PSD percebe-se que o PS pode (podia?) caminhar para um resultado absolutamente desastroso no distrito de Braga.

Em Braga, Celorico de Basto e Vieira do Minho os actuais presidentes-Ricardo Rio , Joaquim Mota e Silva e António Cardoso- caminham para uma renovação mais ou menos tranquila dos mandatos enquanto em Famalicão o presidente Paulo Cunha caminha para o melhor resultado de sempre no concelho.

Na Póvoa de Lanhoso, onde até na oposição o PS não resiste a ter duas listas (!!!), o PSD muda de candidato por força da lei de limitação de mandatos o que acarretando sempre alguma perturbação acredito estar longe de poder contribuir para a perda das eleições.

Restam Esposende e Vila Verde.

Na primeira o PS não tem qualquer hipótese de vencer, como aliás nunca venceu em 41 anos de poder local democrático, mas aí verifica-se uma das tais circunstâncias a merecerem destaque de que falava no inicio deste texto.

Porque é em catorze o único município onde há uma lista de “independentes” oriundos do PSD.

Que podendo ser, o futuro o dirá, a principal força da oposição não impedirão,contudo, a reeleição de Benjamim Pereira o actual presidente eleito pelo PSD.

Em Vila Verde o PS apresenta ,porventura ,a sua mais forte candidatura de oposição no distrito que contudo não deverá ser suficiente para impedir o PSD de manter a presidência do município conquistada em 1997.

Há pois circunstâncias curiosas em volta das eleições no distrito de Braga.

As divisões no PS no poder, as fragilidades das candidaturas do PS na oposição por contraponto com a unidade do PSD nas câmaras que lidera pese embora a excepção, que confirma a regra, de Esposende.

Talvez a maior das curiosidades em volta destas circunstâncias seja mesmo a forma como nalgumas, não todas que fique claro,  das câmaras em que é oposição o PSD não soube aproveitar as debilidades socialistas e assim corre o risco de passar ao lado de um resultado que podia ser histórico.

Assunto a que voltarei um deste dias.

Luís Cirilo Carvalho, 57 anos, é deputado municipal eleito pelas listas do PSD. Já liderou a concelhia do partido e foi deputado à Assembleia da República 1999 e 2005 na bancada social-democrata. Foi governador civil entre 2002 e 2003. Passou pelo Vitória Sport Clube como dirigente.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.