Pode a tecnologia evitar um novo Trump?

Um dos temas que mais tenho abordado neste espaço de opinião é o da transformação digital e da sua aplicação nos vários níveis de Governo, especialmente nas cidades.

A perspetiva mais vezes abordada relaciona-se com os desafios que este coloca, e com o caminho a fazer para apanhar o comboio de uma evolução que anda infinitamente mais rápida do que a transformação de processos que a administração pública permite.

Contudo, há uma vertente a explorar, menos vezes falada, e mais facilmente adotável pela simplicidade de algumas soluções e pelo apelo gerado: a aproximação ao cidadão através da transformação digital.

Fenómenos populistas como o de Donald Trump, demagógicos e de mensagem simples têm visto a sua eficácia valorizada pelo voto popular, enganando até estudos de opinião assentes em amostras e receitas que sempre funcionaram.

Em grande medida, tanto a mensagem simples sobre matérias que nos parecem desligadas da realidade que compramos diariamente na TV e Jornais, como a dificuldade dos estudos de opinião coincidirem com a realidade, poderão estar relacionados com a incapacidade de observarmos, escutarmos e incluirmos uma grande massa de opinião pública que está dispersa.

Esta conjunto de pessoas, muitas vezes não ouvidas, não frequentam partidos, não leem colunas de jornais dedicadas a bastidores da política e, até, desconhecem parte dos seus representantes. Contudo, têm uma visão sobre o que as rodeia, alternativas às opções de quem governa e sugestões de melhoria e de ação direta sobre factos muito concretos.

Desconfiam do poder quando não têm acesso a informação, descredibilizam quem gere o poder executivo quando problemas pequenos e concretos não são resolvidos, ficam impacientes com a ausência de acompanhamento de algum processo ou queixa ou, principalmente, porque sentem que a sua voz não é ouvida ou não tem efeito prático no poder político.

Pior: os fenómenos populistas já conhecem as novas ferramentas e operam-nas com mestria.

Não me arriscando a tipificar ou quantificar esta massa de pessoas “fora do sistema” (que podem até não votar, abster-se, ou anular os seus votos) arriscar-me-ia a dizer que, muitas delas, serão pessoas interventivas em espaços que a tecnologia e os tempos que correm lhes trouxeram para se poderem expressar.

Os movimentos de Indignados, Truques de Imprensa, Vigias de Bairro, ou tantos outros grupos muito participados das redes sociais são populados na sua maioria por cidadãos com intervenção político-partidária? Penso que não. Mas com intervenção política, com toda a certeza. Mesmo que apenas que naqueles espaços, porque a participação cívica não conhece regras ou instituições obrigatórias.

E é aqui que o movimento de transformação digital do Estado pode e deve entrar. Na procura de problemas reais das pessoas reais, reportados pelos próprios em tempo real.

Na aproximação ao cidadão, indo ao encontro dele onde este está e se exprime. O caso da presença das forças de segurança nas Redes Sociais é paradigmático.

Na frugalidade da utilização dos recursos, canalizando-os para os sítios certos, nos momentos necessários.

Na transparência na gestão e no acesso à informação. Na abertura à auscultação da opinião de todos para a tomada de decisão. Em governações participadas.

No esclarecimento do que é feito, de forma detalhada, mas direcionada para os destinatários da ação.

Mas principalmente na mudança de mentalidade: O Estado tem que rejuvenescer. Nos protagonistas (pela idade, ou pela forma de estar na vida), na abertura a novas realidades, na capacidade de adaptação a um mundo em constante mudança e na predisposição para experimentar e falhar.

Aprendia nas aulas de laboratórios que uma mesma experiência só resulta da mesma forma duas vezes se feita no mesmo ambiente. O Século XXI não é o Século XX e, por isso, precisa de novos “protocolos”.

Paulo Lopes Silva, 29 anos, é membro da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, ano em que foi candidato a presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião. Foi membro da comissão de acompanhamento da Capital Europeia da Cultura na Assembleia Municipal. Gestor de Projetos numa consultora de Software do PSI 20, é licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Minho. Foi Diretor Nacional de Organização do Partido Socialista entre 2011 e 2014.